quarta-feira, 4 de maio de 2016

Resenha: As Mixtapes de Ben - Raphael Cardoso




Qual é a razão de ler um livro? Em que nos fixamos para escolher qual a próxima leitura? Enredo, autor, personagens, capas, formato? É uma pergunta um tanto quanto pessoal. Eu, por exemplo, geralmente compro livros de autores que conheço ou que tenho indicação de algum amigo. Confesso que já “comprei o livro pela capa” e até o cheiro (sim, eu sou um cheirador de livros, rs) já me influenciou. Enveredar-se por uma nova história, no meu caso, exige uma boa ambientação. Talvez seja este o motivo do meu receio com livros digitais. Sei que o avanço tecnológico é inevitável, mas ainda prefiro o físico, o livro em si. Mas, por que esta discussão? O livro em questão, razão desta resenha, é um livro escrito e divulgado por um meio eletrônico, o WattPad.

Para quem não conhece, o Wattpad é uma comunidade on-line de escritores e leitores, onde o usuário pode publicar suas próprias histórias, textos, poemas, etc, além de ter uma infinidade de opções de leituras, com temas e formatos diferenciados de autores conhecidos ou não. O diferencial é que ele também pode ser acessado por um aplicativo via celular disponível gratuitamente, permitindo assim uma maior interação com o escritor ou outros leitores. É uma ferramenta incrível neste novo cenário tecnológico, mesmo para aqueles que como eu, ainda preferem a leitura comum.

Conheci a comunidade por uma amiga (e também co-autora desta resenha). Ingrid (prefiro chamá-la de Lola) vinha me influenciando a ler algo por ali a algum tempo, mas eu tinha meus receios (e por quê não, preconceitos?). Depois de alguns argumentos ela conseguiu me convencer e eu  resolvi dar uma chance para “As mixtapes de Ben”, meu primeiro contato com o WattPad.  A velocidade em que li a história foi incrível. Li pelo aplicativo, e apesar de não sentir a textura e o cheiro de livro, me senti muito próximo da história. Antes de falar um pouco do livro, segue uma pequena sinopse disponível na abertura da história:
Benício grava em fitas-cassete retratos sonoros de sua vida. Teria dificuldade, entretanto, para harmonizar canções que simbolizassem todas as atribulações por que  passaria no fim dos anos 90, entre passeios à locadora, tamagotchis e boybands.
A adolescência impulsiona Ben a um mundo novo, no qual precisa lidar com a sexualidade não aceita pelo pai e a dificuldade de um amor à distância, com a desconfortável vida escolar, e os tropeços inevitáveis dos relacionamentos humanos. Auxiliado por Bia, a melhor (e única) amiga, Ben traça um plano para, em 30 dias, encontrar-se com sua paixão à distância, o que desencadeia uma busca pela coragem de se tornar quem realmente é.
Com a nostalgia, as canções e as cores dos anos 90 de pano de fundo, As Mixtapes De Ben é uma narrativa simples e empolgante sobre crescer, amadurecer e se aceitar.”
Em primeiro lugar é preciso ambientar bem a história. Ela se passar em uma cidade do interior, em uma época em que whatsapp, facebook, aplicativos de celular e a infinidade de facilidades que temos hoje não existiam. A história de Ben inspira nostalgia desde o primeiro momento, quando nos deparamos com um garoto esperando uma chamada em frente a um orelhão. Aos poucos, especialmente para quem viveu um pouco daquela época, você vai se ambientando aos anos 90 em um Brasil respirando redemocratização, dançando É o Tchan! até o chão, mas que ainda preservava tons conservadores das décadas anteriores. Se hoje, assumir-se gay não é nada fácil, imagina a 20 anos atrás. E para um adolescente como Ben, com uma alma tranquila e romântica, mas um tanto ingênua as coisas não são nada fáceis. Ele precisa conviver com a pressão familiar de ser e tornar-se um homem, fazendo “coisas de homens” e com a figura de um pai visivelmente preconceituoso e machista. Naquela época, arrisco eu a dizer, a palavra homofobia não era tão vinculada e discutida como atualmente, mas se temos um adjetivo para o que o pai de Ben, é homofóbico. Já a mãe, apesar da amorosidade, é submissa ao autoritário marido, até o momento em que o amor pelo filho a transforma em corajosa. O ciclo familiar termina com a irmã que é uma mescla entre a personalidade do pai, conservador, e da mãe, submissa. É neste ambiente que parte dos conflitos de Ben se desenvolve, conflitos que são, ainda hoje, muito comuns nos lares brasileiros. Deve haver várias histórias parecidas ou até mais dramáticas pelo país afora. Apesar de esta ser uma resenha, não pretendo antecipar os fatos da história. A ideia é instigar (assim como a Lola me instigou) a ler, portanto, aqui temos um conflito: pai homofóbico, filho gay, família instável e muitos preconceitos a serem batidos. Lembrando que estamos nos anos 90, em uma cidade do interior, em uma família conservadora.

Outro conflito vivido por Ben é na escola, conflito que é muito comum para os adolescente gays: viver com as constantes chacotas, piadas e saber que você não se encaixa naquele padrão que lhe é imposto desde o jardim de infância. Essa situação torna imperativa a necessidade de discutir a homofobia nas escolas, assim como é preciso discutir todos os preconceitos. Nossa sociedade é preconceituosa e existe cura para isso: conhecimento. Durante a leitura refleti muito sobre as cenas que o livro retrata. Ben é vítima do preconceito pelos colegas e a todo tempo é humilhado com especial raiva por Nelson, um ex-colega do garoto que, a meu ver, esconde uma homossexualidade enrustida. Eu posso dizer com propriedade que é no ambiente escolar que o medo de ser “diferente” se fortalece, pois nosso sistema, infelizmente, recria preconceitos e estimula a “pseudo-normalidade”.
 
Mas a história de Ben é também, e sobretudo, uma história de amor, que dentre vários, é o grande mérito da história. E em um ambiente desesperado de alguém que procura outro como a si que nasce o carro chefe das “Mixtapes de Ben”. Todo esse tom de notalgia e essa coragem que nasce no protagonista são frutos de um amor, um amor juvenil daqueles que parecem único. Da troca de cartas, das ligações no orelhão e do anseio de um primeiro encontro, o namoro vai se enraizando e se fortalecendo a cada capitulo e de repente você está tão ansioso quanto Ben em conhecer Otelo, o “mouro” carioca e um dos trunfos de Raphael Cardoso (autor) como personagem. Otelo é um gay sábio (talvez por conta de sua própria vivência), e um pouco mais velho, que conhece a problemática de ter uma condição sexual não aceita e é ele que ajuda Ben a passar pelos desafios em se assumir e enfrentar o mundo. Otelo tem o que falta no protagonista, uma coragem racional e evoca um sentimento de segurança. Ao mesmo tempo, é nas mixtapes de Otelo que o autor nos brinda com algumas das páginas mais líricas e marcantes da obra.  A relação a distância dos dois se fortalece com as mixtapes que ambos gravam em cassetes para o outro e que ajudam o relacionamento a fluir. Você acaba descobrindo uma nova forma de ler um livro (que só um aplicativo como o WattPad pode permitir). A história te dá novos formatos de leitura e enquanto você devora cada capítulo, o link com a mixtape daquela parte da história é a trilha sonora que dá sabor aos fatos. Cada nova mixtape que o livro nos apresenta é a descoberta de personagens (ou será o autor?) com um gosto musical excelente e que dão ritmo ao enredo, embalado ao som de Mazzy Star, Portishead, Simon and Garfunkel, Smashing Pumpkins, Jeff Buckley, Alanis Morissette, entre outros. É preciso mergulhar na história,  deixando-se levar pela música das mixtapes e pelo tom de juventude dos personagens.

Um dos pontos fortes e talvez o melhor capítulo é o primeiro encontro de Ben e Otelo no Rio de Janeiro. O autor soube descrever bem as paisagens cariocas, sempre com os tons soturno e nostálgico que dão ritmo ao livro, e fez do primeiro encontro deles inesquecível.

Apesar das mixtapes girarem em torno do romance a distância de Ben e Otelo, existe um terceiro personagem que dá outro tom à história: Heitor. Atrevido, protetor e seguro de si, Heitor é um companheiro de sala de Ben que o acaba ajudando em uma das várias situações de constrangimento que o preconceito gera na vida do garoto. Uma fagulha de amor nasce das situações que enfrentam juntos e entre a presença e ausência, Ben terá que descobrir o melhor caminho para o seu jovem coração.

Acredito que os três pilares das “Mixtapes de Ben” estão apresentados, lembrando que a história se desenvolve com outros personagens também, como o professor Hermes (imprescindível na trama em vários momentos) e a melhor amiga (e fiel escudeira) de Ben, Bia.

Foi uma nova experiência de leitura. Diferente, prazeroso e eficaz, o texto de Raphael Cardoso é ágil, dosado e poético. Às vezes é um pouco exagerado nas descrições e dramático nos diálogos, talvez pelo tipo de público e pela forma como a história foi escrita (capítulos publicados periodicamente). Nos poucos momentos que perdi o ritmo  foi pelo cansaço de ter quase sempre a visão de Benício do enredo (claro, a história é dele, mas às vezes poderia haver um respiro maior) ou porque me sentia lendo um roteiro de Malhação com todos os dramas sendo do protagonista. Entretanto, no final a história é ótima e deixa uma sensação nostálgica incrível. Revivi a época das locadoras de vídeo, dos cassetes, de jogar pokemon no game boy. Me lembrei um pouco  daquela sensação de interior, das tardes tempestuosas com bolinho de chuva, dos banhos na cachoeira ou das tardes quentes com os amigos. Também revivi minha época de vencer meus próprios preconceitos, dos dias em que uma piada destruía meu dia e quando tive o valor de assumir-me como sou. Por tantas lembranças e por uma história assim, valeu a pena deixar um pouco o livro físico de lado e se enveredar por essa ferramente incrível. Eu mesmo a alguns anos atrás era um poeta relativamente conhecido no Nyah (rede social de fanfictions).

Para finalizar bem esta resenha não poderia faltar minha própria Mixtape, feita especialmente para os que chegaram ao final do texto, rs. Portanto, feche os olhos. Imagine que este texto no  computador (ou celular) é uma carta de um velho amigo indicando um livro. Junto a carta chega também um cacete com 10 músicas desconhecidas. Você se deita e saboreia cada canção (não se esqueça de dar volta no cacete para o lado B). Aí está o cenário para ler uma boa história. Clique no link abaixo para escutar a seleção:

quarta-feira, 27 de abril de 2016

O dia em que conheci Mario Vargas Llosa


No dia em que conheci Mario Vargas Llosa o frio era tão forte que cortava meu rosto desabrigado e seco. Eu caminhava apressado pelo centro de Santiago do Chile, ansioso por chegar à cerimônia de agraciação do intelectual como Doutor Honoris Causa pela Universidade Diego Portales, uma das mais prestigiosas do Chile.

Poucos dias antes havia lido uma entrevista do escritor peruano ao jornal "El País" na qual ele se declarava a favor do impeachment da presidente brasileira Dilma Rousself. Na entrevista ele afirmava não saber muito do caso, mas acreditava que se o impedimento fosse legítimo, ele deveria ocorrer e via o que ocorria no Brasil como um exemplo "democrático" para a região. A opinião não me intrigou, pois já reconhecia em Llosa um crítico dos governos populistas que se instalaram na última década em alguns países da América Latina, entre eles o Brasil. O que me levava a acordar cedo em uma terça-feira fria era mais do que a curiosidade de conhecer um escritor famoso, era o desejo de entendê-lo e descobrir os pilares de um dos poucos nobel de literatura que nosso subcontinente recebeu.

Conheci a literatura de Llosa com "A Guerra do fim do mundo", que inspirado no livro de Euclides da Cunha, também narra a Guerra de Canudos no sertão baiano. Fiquei intrigado com a perspicácia do escritor em mesclar personagens reais e fictícios e no conhecimento sobre o conflito. Segundo palavras do mesmo, Canudos é um reflexo da América Latina e seus conflitos internos. Apesar da qualidade do livro, a narrativa não me fez um apaixonado por Llosa como, por exemplo, a leitura de "Cem anos de Solidão" me transformou em um leitor voraz dos livros de Gabriel García Márquez. 

Cheguei à Universidade e muita gente já se encontrava por lá. Me senti um pouco intimidado por ver tantas pessoas engravatadas, vários ministros, escritores e o ex-presidente chileno Sebastián Piñera prestigiavam Llosa. Muitos estudantes também ocuparam a plateia lotada do evento. Procurei me misturar entre eles e ser mais um observador.

Quando enfim a cerimônia começou e o reitor apresentou Llosa ao público, meus olhos se encontraram com o senhor de rosto duro e cabelo grisalho sentado de forma imponente e observando as reações da plateia. Ao ser anunciado levantou-se em meio a uma salva de palmas que não o intimidou. Passos firmes, olhar sério e um meio sorriso, o Nobel de Literatura começou sua fala e já nos primeiros momentos conquistou o ouvinte com um discurso em tom confidencial e uma clareza invejável para um senhor de 80 anos. Llosa quis falar sobre sua juventude e sobre sua decepção com a Utopia, a Utopia que guiou lideres e rebeliões por toda a América Latina, a Utopia da igualdade e do comunismo.

Novo livro de Llosa


Um mestre das palavras como Llosa não tem dificuldades em se comunicar. É simplesmente um dom. Nas entrelinhas de cada frase um significado, acompanhado de uma frase de efeito e uma leve pausa para a recepção da plateia. O escritor falou sobre sua juventude e de sua vida em um Perú pobre, desigual e marcado por ditaduras ferrenhas. Llosa começou contando sobre seu ingresso na Universidad Mayor de San Marcos de Arequipa, tida naquela época como resistente e rebelde ao sistema ditatorial, e também sobre a descoberta do comunismo. Sempre muito atento e um leitor nato, nunca aceitou todas as ideias do marxismo sem receio e utilizava-se da literatura como instrumento de argumentação.

Já como jornalista, Mario Vargas Llosa viu as transformações da Guerra Fria e do período pós-guerra com grandes convicções de que, por fim, na América Latina, uma sociedade mais justa se aproximava. A "Revolução Cubana" foi um marco para o continente e para a trajetória do socialismo no mundo. Era a porta aberta para uma nova sociedade, baseada nos princípios marxistas, ideologia que tanto inspirava o jovem Llosa. Por fim a América Latina, um subcontinente rodeado de indiferenças, exclusão e desigualdades, poderia alcançar uma utopia. Porém o sonho esbarrou no poder, a utopia se transformou em oasis e o escritor viu-se obrigado a repensar seus conceitos.

Por pouco mais de 30 minutos Llosa deu um verdadeiro depoimento de como o sonho do comunismo se transformou em utopia e de como a utopia o decepcionou. Contou-nos. brevemente, sobre o encontro com Fidel Castro alguns anos após a "Revolução Cubana" de 1959 e como ele enxergou nos gestos e nas palavras de Fidel o fim da crença de que o socialismo era o caminho a seguir para uma sociedade "perfeita", sociedade esta que ele veemente negou: "Não existe, é impossível uma sociedade perfeita". Em suas próprias palavras: "Como posso defender um sistema em que o pensar diferente me faz criminoso?", afirmou o escritor referindo-se a atitudes do Regime de Castro contra a oposição na ilha.

Llosa não falou sobre a amizade com o também Nobel de Literatura, Gabriel Garcia Márquez (1927-2014) e a tumultuosa briga que selou o fim  da companheirismo. Muito se fala, muito se especula, mas pelo discurso e pelo intelectual que o peruano se transformou com o passar dos anos é possível afirmar que o fim era inevitável e que as ideologias já não combinavam. Gabo viveu a utopia até a sua morte; Llosa deixou a utopia nos anos 1970 quando descobriu no liberalismo uma nova forma de ver o mundo e construir uma sociedade. E por liberais como Alberto Camus, o escritor se embrenhou em uma nova busca: uma sociedade mais justa, aberta a novas propostas e democrática. Llosa ainda falou sobre sua experiência vivendo em Londres nos anos de governo da polêmica Margaret Thatcher.



No fim deixou a plateia com um gosto de quero mais e a verdadeira certeza que independente das ideologias, Llosa se transformou em um dos maiores pensadores e estudiosos sobre a América Latina e suas indiferenças e intensas lutas. Não falou sobre seu novo livro "Cinco Esquinas", que também deve lançar durante a semana em Santiago, mas foi muito simpático com os estudantes e admiradores (me incluo aqui) que o tietaram no final do evento.

Neste mesmo dia, em que descobri alguns autores com o peruano, passei pela biblioteca pública interessado em uma nova forma de pensar: o liberalismo. Não que Llosa tenha me convencido ou me aconselhado a fazê-lo, mas quando as utopias já não dão conta do recado é preciso olhar para todos os lados. É na busca da perfeição que está o sonho; é na realidade que o homem esbarra na decepção. Esse foi o dia em que realmente conheci Mario Vargas Llosa.

domingo, 5 de julho de 2015

Uma História escrita A Sangue Frio


Era uma manhã fria de domingo, uma manhã em que o outono começava a mesclar-se com o inverno e o ar era seco e cortante. Permitiu-se acordar um pouco tarde, nas horas seguintes ao almoço. Havia bebido além da conta no dia anterior, 14 de novembro, e uma dor de cabeça inconfundível de ressaca teimava em martelar, querendo ganhar vida, almejando estragar as poucas horas do fim de semana que ainda restavam.  Demorou-se alguns minutos até tomar a decisão de sair da cama para começar suas tarefas diárias e resolveu que antes de tudo tomaria um café, sem açúcar como era seu habitual. Vestiu-se e com a dor-de-cabeça aumentando saiu para comprar o café e o jornal do dia. Não desejou “bom dia” ao porteiro, como sempre fazia, apenas passou evitando olhares e conversas desnecessárias. Só queria um pouco de paz.
O dia estava incomum para um domingo frio: muita gente na rua, muito barulho. Comprou o New York Times pensando no seu apartamento quente e na possibilidade de passar o resto do dia na cama. Não escreveria naquele dia. Já haviam passado dias desde a última vez que escrevera uma única frase completa. Não sentia vontade, simplesmente não queria. As coisas não funcionavam assim para ele, e nas últimas semanas evitava o máximo possível às ligações do seu editor.
Voltou ao apartamento aliviado, sentou-se na cozinha que não limpava desde “não se lembrava quando”, e deu uma passada de olho pelas manchetes do dia. O ano de 1959 seguia sem grandes acontecimentos. O mundo continuava a se dividir entre heróis (americanos, capitalistas) e vilões (russos e comunistas). Tudo parecia seguir o rumo de uma nova guerra. Alheio, ao menos naquele domingo de ressaca, às notícias políticas, o olhar de Truman Capote passava rapidamente pelas páginas do jornal, enquanto bebericava o café forte e sentia o aroma fresco; a língua queimando. Um estranho que o visse de longe imaginaria que ele estava atento a tudo, menos às páginas que folheava sem vontade. Era uma figura estranha, sentada em uma cozinha suja e caótica, com um copo descartável de café e um olhar frio. Era difícil imaginar que daquela cena nasceria um dos maiores livros já publicado na história americana.
Enquanto as grandes manchetes não lhe chamavam a atenção, uma pequena nota isolada em uma página perdida, sem muitos atributos, o fez mudar de posição na cadeira e deixar o café de lado ao menos por um minuto. Eram dois parágrafos sucintos que descreviam a chacina de uma família no interior do Kansas, estado do centro dos Estados Unidos. Uma família inteira assassinada por poucos trocados, de forma brutal e aparentemente sem deixar marcas. Não muito diferente de outros casos que o New York Times já noticiara outras vezes.
Mas foi ali, na tragédia de uma família tipicamente americana, que Capote encontrou vestígios para escrever um dos livros mais emblemáticos do jornalismo e da literatura mundial. Polêmico e desempenhando o papel de jornalista 24 horas por dia, Capote passaria os próximos seis anos de sua vida envolvido naquela história de arrepiar. Uma triste realidade que saiu do anonimato de uma minúscula cidade qualquer para se transformar num relato único e pavoroso.


***


É impossível falar de “A Sangue Frio” sem citar o seu polêmico autor, Truman Capote. Ao ler a pequena notícia sobre a chacina de uma família, o jornalista percebeu que ali nascia a oportunidade de fazer o trabalho da sua vida: Inaugurar o romance de não-ficção. Entre as polêmicas que envolvem o livro e a vida de Capote, a criação de um novo gênero jornalístico (ou seria literário?) é uma das mais questionadas. Muitos afirmam que o romance de não ficção já existia, praticada na mesma revista em que trabalhava Capote, a The New Yorker. Décadas antes John Hersey havia publicado a grande-reportagem (que também se transformou em livro) Hiroshima (1946), que contava o relato de sobreviventes às bombas de Hiroshima e Nagasaki no Japão, durante a segunda guerra mundial.

Truman Capote


O jornalismo de não-ficção,  também conhecido como New Journalism ou Jornalismo literário é um estilo que, de forma a simplificar-se o significado, mistura preceitos jornalísticos (apuração, entrevistas, informações, etc) com literatura, relatando um fato de forma, muitas vezes, mais aprofundada, baseando-se em características psicológicas, descrevendo cenas, lugares, pessoas, etc. O texto é mais longo e é permitida uma visão pessoal do jornalista. Existem várias vertentes do estilo e muitos escritores se fizeram famoso escrevendo esse tipo de literatura, como por exemplo, Tom Wolfe, Gay Talese e Gabriel García Márquez.

A Sangue frio é o resultado de cinco anos de apuração, entrevistas e, por que não, impressões pessoais de Truman Capote sobre a tragédia da família Clutter, assassinada no dia 14 de novembro de 1959 na pequena cidade de Holcomb, Kansas. Truman chegou à cidade cena do crime apenas alguns dias depois da tragédia, e passou anos no local, entrevistando conhecidos, vizinhos, investigadores e os próprios assassinos da família. Em seu relato, ele deixa transparecer o psicológico de Perry Smith e Dick Hickock, os criminosos, revivendo a infância e os traumas dos mesmos. Sabe-se que Capote foi o único com acesso aos criminosos quando ambos já estavam condenados ao corredor da morte. Neste ponto há uma crítica com relação a postura profissional de Capote. Seus críticos afirmam que a relação do escritor com os assassinos passou do campo profissional e tornou-se pessoal, especialmente com Perry Smith; há “teorias” de que ambos mantiveram um caso no período em que Smith esperava a sua condenação.

Em ordem: Perry Smith e Dick Hickock


O fato é que, apesar das polêmicas e das críticas à postura ética de Capote, A Sangue Frio não é apenas um relato cru da cena de um crime, é um romance que se embrenha pela própria sociedade americana, se aprofunda na mente psicopata e, por que não, na justiça americana daquela época.
O livro começa antecipando o principal fato da história: o assassinato dos quatro membros da família Clutter. Aos poucos você vai conhecendo a rotina de uma das famílias mais queridas e respeitadas daquela comunidade; vai se acostumando com a simplicidade de Holcomb (que espera o correio jogado pelas portas de um trem, que nem sequer para na cidade). Você só conhece os detalhes dos assassinatos no mesmo tempo em que os investigadores vão descobrindo pistas e fatos sobre o fato. Os assassinos não são um segredo para o leitor, que nas descrições de Capote vai “entendendo” as motivações de Smith e Hickock. Truman vai fundo e busca explicações nos traumas dos criminosos. Aqui vale um parêntese. A narrativa do livro te leva a crer que Perry Smith, apesar de ter assumido ter atirado nos quatro membros da família, não é o “malvado” da história. Com uma história triste e pobre, Smith é encorajado todo o tempo por Dick a realizar o ato de crueldade. Muitos acreditavam na insanidade de Perry, e alguns críticos afirmam que conhecendo Smith como conheceu, Capote podia ter testemunhado em favor da “loucura” do assassino. Uma questão ética entra em pauta: até que ponto o jornalista pode interferir nos fatos?

Fugindo um pouco das polêmicas, A Sangue Frio segue uma narrativa precisa, onde cada detalhe é exposto e explicado, onde os personagens secundários te ajudam a compreender a realidade de Holcomb e como viviam os Clutter. Você é inserido na história e em alguns momentos é possível que surja uma pergunta. Como Capote poderia saber de tantos detalhes?

Família Clutter


Uma pergunta respondida em quase seis anos de trabalho, que só terminou quando os assassinos foram enforcados em 14 de abril de 1965. Do fatídico dia em que a rotina de Holcomb foi interrompida pelo assassinato da família Clutter ao dia em que os assassinos pagaram por seus crimes, Capote mantém uma descrição dos fatos incrível. É difícil não perceber características que seriam influência para posteriores relatos de jornalismo e literatura. Os dias em que os assassinos passaram à espera no corredor da morte foi uma possível inspiração para Stephen King escrever um de seus livros mais famosos, “The Green Mile” (À espera de um milagre no Brasil). Perry Smith recebia visita de um pequeno animal em sua primeira cela. Era sua única companhia e assim como Eduard Delacroix  treinava o seu ratinho de circo. Os personagens de King também mantém certa semelhança com a descrição de Capote dos companheiros de Smith e Dick no corredor da morte.

Ao terminar A Sangue Frio fica uma sensação gelada no corpo. Ler o livro é como reviver aqueles dias; é transformar-se em um observador, assim como foi Capote, do desenrolar de um dos crimes que abalaram a América. Famílias seguiram sendo assassinadas, criminosos seguiram manchando de sangue comunidades pacíficas por todo o mundo, mas nenhum livro foi capaz de chocar e relatar tão bem como foi A Sangue Frio, já um ícone do jornalismo e da literatura.


No Brasil A Sangue Frio é publicado pela editora Companhia das Letras. Para quem se interessa também há dois excelentes filmes sobre a história. A primeira baseada no livro, que conta a história dos assassinos e de acordo com o enredo do livro. O filme é de 1967 e possui o mesmo título do livro. O outro filme se chama Capote (2005) e é sobre a relação de Capote com a história. Dois ótimos filmes.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Borrão de Lembranças

Hoje é uma data propícia para escrever. Faz exatamente dois meses que estou de retorno ao Chile. Muita coisa aconteceu e o tempo voou, como sempre. É estranho que quando estamos vivendo uma parte boa da nossa vida as coisas passam tão rápido. É quando nos damos conta de que o tempo é incontrolável. O tempo suga as nossas experiências e nos brinda com lembranças... Espero que minha vida seja apenas um borrão por este mundo; apenas fumaça dando sinal de que algo por ali aconteceu. Algo bom. Às vezes é bom parar pra refletir e se dar conta de que muito em breve seremos todos lembrança. Alguns serão recordações eternas, gravadas em livros, fotografias e memórias; outros deixarão de existir assim que o último a se lembrar dele se vá dessa para melhor. Não me importo muito com o que serei desde que seja um “borrão” de momentos únicos e especiais.

Algumas pessoas me perguntaram por que eu não estava mais escrevendo. Esta não era uma constatação verídica, já que o ano de 2015 tem sido de extrema inspiração para mim. Escrevo sim, só não ando publicando no meu blog. Eu nunca quis que o “Universo em Expansão” se tornasse uma obrigação, por tanto nunca me forcei a publicações periódicas. Simplesmente publico quando sinto necessidade de ser escutado, quando preciso que alguém veja o que tenho feito e o que tenho descoberto. Como disse no começo deste texto, foram dois meses em que muitas coisas aconteceram.

A saudade da pátria é inevitável. Eu sou um apaixonado pelo Brasil e toda vez que me afasto de lá me sinto órfão. Uma necessidade nova nasce dentro do meu peito e eu passo a ouvir bossa nova como louco. Procuro referências brasileiras em tudo que vejo, leio e escuto. Esses dois meses de “exílio” me apresentaram artistas que estavam tão perto quando estava em Londrina, que não dava muito atenção. Chico Buarque tem sido o meu cantor, compositor e escritor brasileiro favorito desde o ano passado, mas junto com ele descobri Ney Matogrosso e sua excentricidade; Maysa e sua voz única; Caetano e sua alma apaixonada; Carmen Miranda e seu sorriso extremamente brasileiro. Que cultura linda! Que país incrível! Entristeço-me com as notícias e com o pessimismo de muitos brasileiros, mas estar longe significa querer bem, sentir falta e torcer pelo meu país. Esse é outro lado bom de morar fora: saber o quão bom é o seu lar.

Voltar pra Santiago, desta vez com um propósito desafiante: trabalhar, foi desde o início uma necessidade. Minha vida sempre foi pensada até o dia em que eu receberia meu diploma universitário e tudo estaria bem e perfeito. Não foi bem assim. Desde que comecei a faculdade de jornalismo eu mudei e essas mudanças me fizeram perceber que eu precisava de um tempo longe, precisava conhecer um pouco mais além das minhas fronteiras. O intercâmbio em 2013 me ajudou a confirmar isso, me abriu a mente e me fez descobrir coisas que eu não sabia que existiam. É estranho quando você se percebe diferente, quando tudo que você era parece não fazer sentido e quando o pouco que você tinha já não é suficiente. Entre todos os motivos que me fizeram decidir voltar para o Chile, acho que o maior deles é que foi justamente aqui, nessas ruas e nessas paisagens andinas, que eu me redescobri. Santiago me atrai e eu quero descobrir o que significa essa atração. Pode ser que essa nova aventura por essas terras não tão longínquas não durem muito. Podem durar meses, talvez anos. Eu não me coloquei prazo. Quero apenas viver meus dias de jornalista recém-formado; buscar um emprego que tenho certeza não irá me satisfazer; juntar dinheiro para propósitos que as pessoas chamarão de tontos e conhecer gente, conhecer lugares, conhecer novas miradas e me encantar com o desconhecido.

Cajón del Maipo, nas imediações de Santiago


Nesses dois meses por aqui eu viajei. Viajar é uma paixão que nasceu aqui e que levarei por toda vida. Voltei para lugares que me marcaram e me transformaram. Vivi aventuras que não cabem em fotos, textos ou palavras. Se eu fosse descrever esses momentos, descreveria como um dos borrões mais fortes da minha vida. Eu também comecei uma nova jornada em busca de emprego e não tem sido fácil. Trabalhar na área em que me formei por enquanto não será uma realidade, pois ainda não tenho meu diploma válido em terras chilenas e o processo além de caro é demorado. Tenho procurado empregos que de certa forma me fariam bem. Eu amaria trabalhar no meio de livros ou lidando com o cinema, duas artes que me fascinam. Por enquanto, as coisas têm caminhado e estou esperando que saia meu visto provisório de trabalho, que deve sair nos próximos quinze dias. Houve também alguns momentos de tristeza, não vou negar. Sempre gostei de andar por Santiago, caminhar pelos parques, me sentar e ver o mundo passar. Muitos dias em que nada me resultava bem eu simplesmente me sentava no Parque Forestal, perto de onde estou morando, observava a pressas das pessoas e o apuro em chegar onde quer que seja. O tempo sempre comandando tudo. A melancolia nunca foi um problema pra mim, no entanto, às vezes incomoda.

Salar Uyuni - Bolívia - Uma das minhas viagens



Os dias voaram, muitos momentos passaram e a minha vida tem caminhado bem. Não sei se estou vivendo a minha melhor época, espero que não. Espero que ainda possa pensar muitas vezes que o tempo voou, ficando apenas histórias, lembranças e nostalgia. Afinal a vida é como o tempo: um borrão que colore o horizonte de momentos e no final só resta esquecimento.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Retrospectiva Blogal - Melhores Leituras de 2014

Aproveitando que hoje, 07 de janeiro, é dia do leitor, publico minha lista de melhores leituras do ano de 2014. 

O saldo foi positivo. Foram 40 livros, uma média de 3,33 livros ao mês. Poderia ter sido melhor, mas nos últimos meses do ano foquei no meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) e minhas leituras ficaram em segundo plano.

Neste ano que passou descobri autores incríveis como Gabriel García Márquez, Ira Levin, Lygia Fagundes Telles, entre outros; além de abrir novas possibilidades de leituras, me enveredando para os livros históricos e de política, novo interesse pessoal.

Segue então minha lista das 10 melhores leituras de 2014:


Harry Potter y las Relíquias da la Muerte - J.K.Rowling



Foi na verdade uma releitura da obra fantástica mais importante do século XXI, mas desta vez em uma tradução espanhola. Ler em um outro idioma é uma nova experiência. Consegui me emocionar novamente, reviver aqueles anos em que cresci com Harry e sua turma, época em que eu e meus amigos passávamos horas discutindo os possíveis finais para a série. Lembro-me que enquanto lia as páginas amarelas da minha edição em capa dura da Editora Salamandra, sentia a adrenalina nas partes finais e me emocionei novamente com o final desta série épica. O idioma espanhol me permitiu reler o livro como se o tivesse lendo pela primeira vez. Surpreendi-me várias vezes com as expressões e traduções diferentes do idioma espanhol. 

Como Esquecer - Myriam Campello



Este livro é uma poesia narrada em primeira pessoa. Um romance sobre a dor e um diálogo interior destinado a ninguém. A protagonista, Júlia, é tão dramática e trágica como qualquer personagem Shakesperiano; só não chega ao dito fato do "suicídio" por ser covarde e ainda ter um pequeno apego à vida. Também gostei do filme nacional, protagonizado por Ana Paula Arósio. De foma brilhante ele consegue passar a ideia de apego, desapego, dor, amor, desamores e, assim como o livro, deixa uma sensação de melancolia, uma herança da protagonista. 
Uma leitura nacional que me surpreendeu. Rápida, mas eficaz. Aliás, as leituras nacionais ganharam espaço em 2014. Além deste, li outros 8 livros brasileiros, todos me agradaram à sua forma.


A Sociedade do Anel - J.R.R.Tolkien



O ano de 2014 também foi o ano em que minha "biblioteca" particular mais aumentou. Ganhei muitos livros; comprei mais ainda. Talvez deva-se ao fato de trabalhar em uma livraria, mas acho que o "fato" de trabalhar em uma livraria é porque amo livros. Entre as tanta edições que comprei, pude permitir-me comprar a trilogia do Senhor dos Anéis, edição de colecionador. Tive que fazer a releitura deste clássico nessa nova edição e no ano passado pude ler o primeiro volume: A Sociedade do Anel. Apesar de conhecer bem a história, ler Tolkien sempre reserva boas surpresas e tive uma semana de leitura bem prazerosa. A trilogia é simplesmente uma das minhas favoritas. Tenho certeza que posso relê-la dezenas de vezes e sempre descobrirei coisas novas.

1Q84 - Haruki Murakami




Nunca tinha lido um livro japonês. Sou fã do cinema de terror asiático e vejo animes desde que me entendo por gente, mas livros, nunca havia lido nada. Me interessei por 1Q84 pelo título, que remete ao clássico de Orwell, 1984. Alguns amigos já o haviam lido e me indicaram muito ler a trilogia do escritor japonês mais lido no momento. Resolvi dar uma chance quando o box da trilogia chegou à livraria. Que surpresa boa! Acompanhei cada capítulo ansioso pelo próximo; é incrível como Murakami consegue ir do comum à ficção sem parecer apelativo. Detalhista e cheio de referências orientais e ocidentais; ler Murakami é adentrar em um mundo paralelo onde os personagens são tão ou mais humanos quanto o leitor. Foi, com certeza, uma das grandes surpresas de 2014.

As veias abertas da América Latina - Eduardo Galeano



Este livro é um verdadeiro clássico e é leitura obrigatória para quem deseja entender, compreender e emitir opinião sobre a história e a política da América Latina. É claro que o uruguaio Galeano é um esquerdista nato, mas em "As veias abertas da América Latina" ele destrincha a história latina desde seu descobrimentos aos seus ferrenhos anos de ditadura. Por meio de fatos (todos bem explicados e referenciados), Galeano nos ajuda a entender o porquê do nosso subcontinente continuar sendo subdesenvolvido, subjugado e com problemas seculares que teimam em se repetir . Li também um livro de direita que fala sobre a história da América. A série, "Guia politicamente Incorreto" é feita, normalmente, por jornalistas da Revista Veja e apesar de ser bem escrita e apresentar alguns fatos interessantes, peca quando diferente de Galeano, apresenta boatos como fatos, sem referências, apenas com hipóteses. 
Para entrar em uma discussão é necessário no mínimo um pouco de discernimento e compreensão do tema. Emitir opinião, apenas por emitir não é válido. Acho que o livro de Galeano é um clássico, pois nos ajuda a sair deste senso comum e desta síndrome de vira-lata, característica do sofrido povo latino.

1984 - George Orwell


Sempre fui fã de distopias e sou um leitor ávido de séries juvenis como Jogos Vorazes e Maze Runner, sendo a última lida no ano de 2014, uma boa surpresa. As séries juvenis, geralmente, têm um quê de 1984, sempre com referências, mas com um tom mais de aventura, até porque são livros cujo foco principal é o simples divertimento. 1984 é um livro muito simples e de fácil leitura. Você vai se envolvendo naquele mundo controlado por todos os lados, percebendo referências a regimes totalitários; buscando acontecimentos parecidos com os relatos de Winston na nossa sociedade atual. Existem várias referências que podemos perceber na nossa sociedade, isso porque o livro de Orwell foi escrito na década de 1940. Li o livro de uma vez, em uma edição antiga da biblioteca da minha universidade. Em poucos dias já o havia terminado, mas quedou a sensação de que a história ainda tinha muito a nos dizer. A obra-prima do autor inglês é com certeza uma das mais geniais do século XX, e merece uma prioridade para quem ainda não a leu.

O amor nos tempos do Cólera - Gabriel Gárcia Márquez



Sabe quando um livro te conquista logo nas primeiras páginas? Assim foi com o "O amos no tempos do cólera". Era uma noite comum e estava entediado, em uma ressaca literária depois de ler O Senhor dos Anéis. Não tinha planos  de ler o livro naquele momento, mas o abri, apenas por abrir, e resolvi começar a ler algumas páginas por curiosidade. Quando dei por mim estava chegando à página 50, e parecia que o tempo havia voado. Apaixonei-me pela história de amor perfeitamente realista de Florentino e Firmina; um típico romance latino. A história é de uma leveza... Você se envolve com as tramas e com os caminhos dos personagens de tal forma, que mal nota quando o assunto já mudou e os nomes já não são os mesmos.
Gabo é mestre em relatar os mitos que assombram uma cidade ou uma família, como bem fez em seu clássico livro Cem anos de Solidão. Em O amor nos tempos do Cólera, o colombiano, ganhador do Nobel, não relata apenas um amor: ele relata amores, paixões, sensações e atrações típicas do universo humano e da sua fragilidade perante os sentimentos. O livro me apaixonou e poderia muito bem ser o topo desta lista, mas por uma questão de motivos fica com um 4º lugar digno de 1º. 

Eclipse Total - Stephen King



Não poderia faltar um Stephen King na minha lista. Em 2014 eu li três livros do meste: Eclipse Total, Ao Cair da Noite e Joyland. O conto N, presente em Ao Cair da Noite, e a forma como Joyland relata sutilmente acontecimentos de uma vida  foram surpresas ótimas no ano e também entram na lista de favoritos. Mas, apesar de todos eles me surpreenderam de forma boa, Eclipse me marcou de  forma diferente. 
A cena principal tão bem relatada no livro (e que ficou em segundo plano no filme) me aterrorizou muito, demonstrando mais uma vez o imenso talento que tem o mestre do terror em contar histórias. Ele é especializado em cidades pequenas onde, aparentemente, nada acontece. Porém, segredos sempre fazem parte destes lugares que teimam em existir no mapa.
 Dolores Claiborne, a personagem principal do livro, se tornou uma das minhas favoritas do universo Kinguiano. Uma mulher que sempre se anulou pelos outros, muito parecida com milhões de mulheres que, pelo bem da família, esquecem-se de que têm uma vida.
Um dos mérito do livro é a narração em primeira pessoa e a forma detalhada e extremamente sincera em que ela é dada. Uma outra característica do King que sempre surpreende é o fato de ele antecipar o principal acontecimento, aquele que dá sentido ao livro. Para quem leu ou pretende ler, a cena do poço é simplesmente uma das mas aterrorizantes e uma das minhas favoritas.


Rosemary's baby (O bebê de Rosemary) - Ira Levin



Dizem que ler uma tradução te faz perder pelo menos 40% da história original. Não acredito que seja tanto, se você realmente tiver com uma boa tradução em mãos, mas o fato é: ler no original é bem melhor. Minha história com O bebê de Rosemary é antiga. Tenho uma lembrança do filme ter me aterrorizado na infância, mas é uma lembrança turva, talvez até uma criação da minha mente. Já mais adulto tive a oportunidade de ver o filme e ele se tornou um dos meus favoritos logo de cara. A cena final me aterrorizou como nenhuma outra cena até então. Lembro-me que fiquei de olhos arregalados,  todo o suspense e a atmosfera que o filme cria durante o enredo entram em ebulição com o final. 
Quando descobri que existia o livro, o busquei como louco, mas estava esgotado no Brasil e achei que demoraria muito para ter a possibilidade de lê-lo. Após comentar com um amigo sobre o filme, soube que ele tinha o livro em inglês, e apesar de ter me aventurado em línguas estrangeiras por poucas vezes (li Harry Potter, Cujo e alguns livros da série Goosebumps em inglês) aceitei o desafio e resolvi ler Rosemary's baby. Que leitura incrível. Tão eficaz quanto o filme, mas de uma forma mais pretensiosa. O  livro nos apresenta uma Rosemary mais forte, talvez um pouco mais certa do que vai descobrindo, isso sem perder o tom frágil. A história se desenvolve com bons diálogos e descrições, e a leitura em inglês me permitiu absorver melhor cada detalhe do livro. O vocabulário é simples, não é complicado. A cena final reproduziu a mesma sensação do filme; pude me arrepiar mais uma vez, e tive certeza, ao fechar o livro, que acabara de ler um clássico. 
Depois resolvi ler a continuação, O filho de Rosemary, escrito pelo autor décadas depois. Me arrependi. A história não é envolvente e os personagens perdem a "graça". Leia apenas Rosemary's Baby e aproveite, pois o livro foi recentemente relançado no Brasil.

Cem Anos de Solidão - Gabriel Gárcia Márquez



É até difícil falar da importância deste livro para mim em 2014, e por que não dizer na minha vida. Cem anos de Solidão é mais do que um clássico mundial; é a bíblia da América Latina. É o livro mais latino que já li e talvez vá ler. Foi meu primeiro do Gabo e o que me apresentou ao seu realismo mágico, à sua prosa detalhista e aos seus personagens humanos cheios de superstições e até preconceitos. Não posso deixar de dizer que no principio achei tudo muito estranho: Quantos nomes parecidos; Qual é mesmo a ordem dos fatos?; De quem estamos falando agora? Mas essa estranheza faz parte da leitura do livro. Chega a ser comum. Logo já estava me aventurando na Aldeia de Macondo, ultrapassando suas gerações, conhecendo suas paixões e desonras, seus grandes feitos de guerra. Por várias vezes pensava estar lendo um livro brasileiro. Uma história no sertão nordestino. Os personagens, tão latinos e tão acostumados aos seus infortúnios, lembravam-me das histórias da minha avó, nascida no Rio Grande do Norte, no tempo em que as mulheres ainda casavam antes mesmo de se esquecerem das poucas bonecas de pano que haviam ganhado de algum estranho na rua. As cenas, tão bem descritas, se projetavam na minha imaginação e do riso eu ia às lágrimas.
Cem Anos de Solidão não é um livro para qualquer leitor; é necessário ter essa noção regional, talvez uma paixão pela terra, um nacionalismo nato. A família Buendía e suas extensas gerações não deixavam Macondo quase nunca; apenas quando a guerra teimava em interromper-lhes a vida ou a morte se aproximava do povoado, que depois virou cidade. 
2014 me apresentou a um personagem que em 2014 nos deixou: Gabriel García Márquez, o mais latino dos escritores. Os três livros dele que li já o fazem um dos meus favoritos, e tenho plena certeza de que Gabo ainda me reservará bons anos de solidão.

"O segredo de uma velhice agradável consiste apenas na assinatura de um honroso pacto com a solidão." - Cem anos de Solidão