domingo, 17 de novembro de 2013

Mochilão Parte 4 - Puno , Ilha dos Uros - Copacabana ( Bolívia )

Essa parte final da história nos reservou algumas surpresas e dificuldades, porém não deixou de ser maravilhosa.

" Viajar é mudar o cenário da solidão."
Mario Quintana

Chegamos a Puno, na fronteira entre Peru e Bolívia, no final da tarde. Tínhamos a indicação do simpático senhor  do albergue de Cuzco para ficarmos em um hostel. Nos dividimos em dois táxis, cada carro com cinco pessoas, e fomos para o local.

Puno é uma cidade do sudeste do Peru, com uma população de aproximadamente 120 mil habitantes. É uma das cidades mais altas do mundo, com altitude de 3.800 metros. É famosa pelo Lago Titicaca, uma das fronteiras da cidade, e pela misteriosa Ilha dos Uros:  indígenas que sobrevivem no meio do lago.

Catedral de Puno, Praça de Armas da cidade

Chegamos ao hostel que tinha uma boa aparência, apesar de ficar em um bairro afastado. Era limpo e organizado. Nos acomodamos e estávamos mortos de fome. "Não tem nada aberto a essa hora em Puno". Essa foi a resposta à nossa fome dada pelo dono do lugar. A noite seria ainda mais longa do que imaginávamos, quando uma de nossas companheiras se deu por falta da pochete com o dinheiro e documentos de sua família, composta por três dos dez integrantes.

Vista da Cidade de Puno a partir do nosso hostel. No fundo o Lago Titicaca


Passar por uma situação de roubo ou perda longe do nosso país é complicado. Os chilenos falam a mesma língua que os peruanos, porém, o Peru não é o Chile. As coisas por lá andam um pouco mais devagar. Em Puno as autoridades não parecem estar acostumadas com situações desse tipo, mesmo a cidade sendo um polo turístico do país. Decidimos nos dividir e buscar o taxista que nos trouxe. Eu estava no outro taxi, então, não pude ajudar muito. Sem documentos, nossa ida para a Bolívia estava ameaçada.

A polícia não pôde fazer muita coisa, apenas registrar o boletim de ocorrência, e de forma calma lamentar o fato. Em uma cidade onde os táxis não são registrados por setor, foi impossível encontrar o taxista que, provavelmente, ficou com a pochete. O dinheiro deles se reduziu a zero. Foram cerca de R$1.500,00.

Depois dos problemas da noite, ainda sobrava a fome. O único lugar aberto àquela hora na cidade era uma lanchonete. Mesmo com preços baratos, a fome revelou nossa nova situação: economia. Queríamos continuar viajando, e todos juntos. Não podíamos gastar dinheiro com bobagens, já que três de nós precisariam de ajuda.

           ...

Contratamos um tour para a famosa Ilha dos Uros para o dia seguinte, em um preço de R$30,00 por pessoa. O tour foi comprado na rodoviária da cidade, assim que chegamos. Como tudo no Peru, ele foi reduzido a cada nova agência que nos aliciava. Ele incluía transporte de van e barco até a ilha e depois também incluía nossas passagens para Copacabana na Bolívia. Apesar do problema do "perda-roubo" dos documentos, ainda tentaríamos a viagem para o país de Evo Morales. Depois das atribulações, o jeito era dormir.

Antes de relatar a nossa experiência na Ilha dos Uros, vou falar um pouco sobre o lago Titicaca.

O Lago Titicaca está situado na fronteira entre Peru e Bolívia e está localizado na região do altiplano dos Andes. Tem cerca de 8.300 m²; situa-se a 3.821 metros acima do mar, é o lago comercialmente navegável mais alto do mundo; conhecido pelas suas ilhas, o seu nome vem do quíchua e aimara, línguas indígenas da região, significando "Pedra do Puma", pois segundos moradores, o lago tem o formato de um Puma gigante.

Mapa do Lago


Pegamos um ônibus, no qual nos juntamos com outros estrangeiros para então tomar um pequeno barco para chegar até as ilhas. A viagem pelo lago, que durou pouco mais de 40 minutos, reservou algumas vistas maravilhosas e uma expectativa grande. O clima estava gostoso, sem frio e sem calor, apesar do sol. Eu não sabia nada dos Uros, portanto estava ansioso para saber como eram e viviam. 

Pouco antes de tomar o barco para os Uros

O clima estava perfeito naquele dia
Minha surpresa foi grande ao encontrar no meio daquele imensidão de água, ilhas feitas de uma espécie de palha, além de barcos, casas e tudo o mais feitas do mesmo material. Desembarcamos nas ilhas dos famosos Uros.

Chegando âs Ilhas flutuantes dos Uros

Os barcos feitos de totoras levam os turistas

Nativa dos Uros, vestida com as fortes cores peruanas a espera dos estrangeiros

Uros são as ilhas artificiais e flutuantes do Lago Titicaca, no Peru e na Bolívia. Feitas pelos nativos, elas existem desde antes dos colonizadores europeus chegarem a essa região. Os Uros são feitos a base de totoras, uma planta aquática típica da América do Sul. Na verdade não só as ilhas flutuantes são feitas do material, mas as casas, os barcos e a totora também é fonte de alimento e artesanato para os nativos. 

Para manter a ilha flutuando é necessário constante manutenção. Os "Uros" vivem de pesca, caça, e artesanato. Com as atividades turísticas aumentando muito nos últimos anos, o turismo também é uma nova fonte de renda.





Nosso guia é habitante das ilhas, mas falava um inglês engraçado e um espanhol estranho, fora a língua nativa deles. O inglês dele era engraçado, pois ele sempre repetia: " Hi, my friends", a mesma frase repetida em espanhol " Hola, mi amigos". Sabíamos que ele ser trilíngue era uma grande conquista, mas não deixamos de reparar nesse detalhe. 



Nosso guia e seu "Hola, mis amigos"


Ele nos explicou, muito bem por sinal, como era a vida deles nos Uros. Nos contou a história daquele lugar ermo ( solitário ) e de seus habitantes e sua vida simples. As várias ilhas dependem hoje quase exclusivamente do turismo e das atividades de pesca e caça. O governo peruano não os auxilia, assim nos contou o guia. Ele demonstrou como caçam, e como as "ocas" são construídas com as totoras e nos ofereceu um pedaço da planta. O gosto é quase nulo. É como "comer" água. 

Os habitantes vendem aí mesmo seus artesanatos. Uma das ilhas funciona como centro comercial. Lá você encontrará lojas de artesanato, um pequeno bar e também, caso se interesse em passar alguns dias convivendo com os nativos, uma oca para dormir. É fantástica a organização deles. 

Nativas vendem seus artesanatos aos turistas




Apesar do constante fluxo de turistas, não são todos os nativos que estão acostumados com a agitação. Uma anciã nos afastou da proximidade de sua "casa", e não nos permitiu tirar fotos, a não ser que pagássemos. Nós éramos os intrusos, ela estava certa. 

A anciã não aceitava turistas na sua oca, nem fotos sem pagar


Para finalizar, o tour oferecia pelo valor de mais R$7,00 uma volta no barco feito de totora, mas como estávamos economizando resolvemos dispensar. Voltamos para Puno fascinados com aquele modo de vida e preocupados com nosso próximo destino: a Bolívia.

Dentro das Ocas

O barco leva os turistas pelas ilhas flutuantes

Crianças dentro de uma lojinha de artesanato


Sem notícias do que nos foi roubado, partimos para Bolívia, com promessa da polícia peruana que não teríamos problema na fronteira. A viagem de pouco mais de uma hora e meia foi quente. Chegamos na fronteira com o Peru e a Bolívia sob um sol ardente. Os trâmites deveriam ser feitos nos dois países. 

Foto de despedida na Ilha dos Uros


Apressados pelo motorista peruano, que não era nem um pouco simpático, tentamos fazer tudo o mais rápido possível. Trocar a moeda peruana pela boliviana e  a liberação para entrada na Bolívia. Nesse momento deve-se ter cautela. Essa região de fronteira é perigosa, e muitos se aproveitam dos estrangeiros para oferecer dinheiro falso. Faça tudo com cuidado. Tive que auxiliar muitos estrangeiros que não entendiam as ordens dos bolivianos apressando o fluxo de pessoas. Minhas aulas de inglês foram um bom investimento.

Resolvido os meus trâmites, eu esperava, já na Bolívia o restante do grupo. O ônibus já nos aguardava. Só faltava o nosso grupo. Pasmos ficamos quando descobrimos que os três que foram roubados não poderiam ingressar no país. O documento expedido pela polícia peruana não servia de nada, já que eles tinham uma filha menor, e não possuíam comprovação que eram os pais da mesma. Estávamos perdidos. Os bolivianos não entenderam nossa situação e estavam estressados. Estávamos "presos" ao Peru. 

Na fronteira entre Peru e Bolívia

 Ficamos naquela situação incômoda por alguns minutos. Foi um momento triste. Todos os estrangeiros nos olhavam pelas janelas do ônibus, imaginando o que se passava. A pobre da Jo, a filhinha da Javi e do Pablo, o casal roubado, chorava. Não os deixaríamos ali no meio do nada. O que fazer em uma situação assim?

O motorista do nosso ônibus veio falar com nós e fez uma proposta: a de entrarem ilegais. Aquilo parecia loucura, mas nós tínhamos sido injustiçados. Recusamos a proposta. O motorista, nervoso, se foi. Nosso ônibus saía lentamente e nós ficamos, observando ali parados, entre Bolívia e Peru, sem sabermos o que fazer. Até que chegou uma peruana e nos disse:

" Não sejam bobos, vão pra Copabacana. Quando voltarem, finjam que nunca saíram do Peru. Vocês só não vão ter o documento de saída e entrada no país, porém a fiscalização é péssima. Muita gente faz isso aqui. "

Pensamos na hipótese. Realmente a fronteira era má fiscalizada. As pessoas passavam andando sem nenhum problema, só os que iam direto pra polícia boliviana que tinham que mostrar documentos. 

" Vão logo, ônibus de vocês ainda está ali "- nos alertou a velha senhora.

Nos olhamos  e nossos olhar confirmou a decisão: Iríamos sim pra Bolívia. Corremos, escondidos e com medo, de volta para o nosso ônibus. O motorista abriu a porta e o bagageiro para colocarmos novamente nossas malas. Ninguém parecia nos observar. Combinamos que o trajeto de volta seria feito pelo mesmo condutor, e ele faria exatamente a mesma coisa: Deixaria nossos amigos sem documentos na fronteira, enquanto o restante de nós fazíamos os trâmites. Se alguém perguntasse a eles, nunca saíram do Peru, e a documentação iria apenas confirmar isso. Pagamos um valor de R$30,00 de "gorjeta" ao motorista e seguimos mais aliviados, porém ainda com medo, para Copabacana. 

Ufa. O coração bateu mais rápido, a adrenalina correu na veia e a aflição foi vencida. Era hora de descansarmos o corpo e a mente. Enfim, na Bolívia.

Bolívia é um país do centro da América do Sul. Um dos poucos sem acesso ao oceano, território perdido em uma guerra que envolveu Chile e Peru, a Guerra do Pacifico.  Tem uma população de pouco mais de 10 milhões de habitantes e a capital é Sucre ( governo ), ou La Paz ( administrativa ). Sua população é bem mesclada e possui uma cultura indígena muito forte. É também o país mais pobre da América do Sul, e muitos bolivianos vão para São Paulo aí tentar uma vida melhor.



Copacabana, também tem praia, assim como a correspondente carioca, porém é uma praia banhada pelo lago Titicaca. Uma cidade cheia de turistas, que assusta um pouco a noite. Saímos a procura de um bom lugar para nos hospedar. Mortos de fome e cansaço, a tarefa não foi fácil. Os preços eram mais baratos que no Peru, porém não ofereciam muita higiene  e a maioria não tinha banho quente. 

Depois de percorrermos várias hospedagens, decidimos ficar em uma no centro de Copacabana que oferecia o que precisavámos. No outro dia faríamos o famoso passeio até a Ilha do Sol ( não a mesma da canção do Netinho ), precisávamos comer e descansar.

Vista da rua do nosso hostel

Igreja no alto do Morro, em Copacabana

"praia"

Fizemos uma boa refeição em um restaurante barato e lotado na cidade. Pagamos uma bagatela de R$10,00 pela entrada + prato principal. 

Ficamos surpresos quando o garçom veio nos atender. Ele não tinha mais do que 10 anos. Parecia cansado, mas não podíamos fazer nada. Aquele não era o nosso país, muito menos nossa cultura. O trabalho de crianças na Bolívia infelizmente é uma realidade que assusta. Em agências de turismo, restaurantes ou nas ruas da cidade é muito fácil encontrar meninos que estão em idade escolar, trabalhando.

Depois de jantarmos percorremos um pouco a cidade. Ficamos um pouco receosos com a hospitalidade do lugar. Não posso julgar um país inteiro por um punhado de pessoas, mas em Copabacana, não parecíamos bem-vindos. Os chilenos foram insultados em alguns momento nas ruas: " Chilenos de mierda", e o olhar impaciente dos vendedores ao perceber a procedência dos meus amigos era visível.


Talvez essa situação se "justifique" com as recentes tentativas da Bolívia de reaver o pedaço de terra que se julga seu por direito. O sonhado acesso ao Oceano Pacifico que tanto faz falta para o país de Evo Morales, está sendo discutido na Corte Internacional de Justiça, em Haia. Não poderíamos deixar uma desavença política destruir nossa viagem, então, fizemos pouco caso dos ocorridos. 

Percorremos a noite boliviana e o seu ar indígena e artesanal, e por volta das 11 da noite nos retiramos. Precisávamos descansar para os últimos dias de nossas viagem. Aquele dia tinha sido muito esgotante.

" Pior que não terminar uma viagem é nunca partir."
Amyr Klink

sábado, 9 de novembro de 2013

Mochilão 3 – Cuzco, Ollantaytambo, Águas Calientes e Machu Picchu


" A mente que se abre a uma nova ideia, jamais volta a seu tamanho original." Albert Einstein


Antes de começar a famosa subida até uma das sete novas maravilhas do mundo, gostaria de tentar descrever uma sensação que eu só conheci depois que passei a viajar.

Estar em um lugar único é algo inesquecível, é como ser único também. A sensação é quase indescritível. É como se todos os seus problemas e pensamentos fossem separados da sua alma e só existisse você e a natureza. Sentir o vento gelado batendo no rosto; Aquela sensação de adrenalina percorrendo as veias;  Sentir-se em totalidade. A plenitude invadir seu espírito; Seus sentidos ficam mais aguçados. Você sente, ouve, percebe, cheira, toca e vê, e parece que também é sentido. É uma troca privilegiada com o ambiente. São momentos únicos que acredito eu, sejam excepcionais para a vida de cada pessoa. 

Todo o caminho para Machu Picchu foi exatamente dessa forma que me senti. O cansaço, as dores da caminhada e os efeitos da altitude não me abalaram. Não senti medo ou receio em momento algum. Sentia-me renovado pela força da natureza e pela vontade de chegar até a lendária cidade inca.
Gostaria de pontuar para os leitores deste blog, o que foi a Civilização Inca, os fundadores de Machu Picchu.


“Os Incas”foi um império que incluía muitas outras culturas pré-colombianas e que partiam do Norte do Chile e nordeste da Argentina, chegando até o sul da atual Colômbia. A Civilização chegou a alcançar quase 20 milhões de pessoas, e sua capital era a atual cidade peruana de Cuzco, o umbigo do mundo. O soberano maior era o filho do sol, que na sociedade, tinha status de Deus.
Os Incas foram vencidos pelos espanhóis,e  entre as heranças que essa civilização nos deixou, estão grandes ensinamentos; línguas que até hoje são faladas em alguns países como o quíchua e aimará; e a famosa e misteriosa Machu Picchu.
...
Nossa partida para Machu foi cedo. Chegamos à Praça de Armas de Cuzco, onde nossa van estaria nos esperando às 8 da manhã. Aproveitei que o céu estava muito azul e tirei várias fotos do lugar encantador.  A van se atrasou um pouco para aumentar a ansiedade.

A clássica foto do grupo todo antes da partida para a aventura

O céu azul de Cuzco

 Levei uma mochila de costas, estilo mochileiro. Nela, o que encontrei essencial para a caminhada foi bloqueador solar, remédio para mal-estar, bolachas, repelente para insetos além de muita água e roupa para calor e frio. Não se esqueça de levar o passaporte, pois em Machu Picchu você poderá carimbá-lo.

Antes de sairmos de Cuzco passamos para buscar um grupo de israelitas, e dois britânicos que fariam a viagem conosco. A viagem de van foi uma aventura inesperada e animada. O caminho até a hidroelétrica é recheado de perigos. Você passará por meio de rios, zonas de derrube de pedras, precipícios, e pontos extremamente altos. 

Apesar da altitude eu não passei mal. O que me deixou um pouco tonto foram as longas voltas que o carro dava. Estive sentado ao lado da janela e do precipício, uma experiência no mínimo aterrorizante. A cada  solavanco, já me imaginava caindo do meio daquelas pedras.  O motorista, monossilábico, aumentava o tom de adrenalina, pois não parecia nem um pouco preocupado com o abismo e muito menos com a velocidade. Em vários momentos tivemos que dividir o espaço, já pequeno, com outro carro que vinha na direção contrária. Eram minutos de tensão, no qual até os menos nervosos, esticavam o pescoço para analisar a situação. Apesar da aflição contínua nas horas que duraram essa viagem, eu me diverti muito. Estava  extasiado com as lindas paisagens.  



As montanhas contrastavam as paisagens verdes



A estrada se desenrolava por um precipício entre as montanhas


 O Peru é um dos países mais lindos do mundo. Montanhas, pastos verdes, rios extensos, aldeias isoladas. Tudo isso se misturava na minha janela, e aquela sensação de deslumbramento enchia meu peito. As horas na van foram intermináveis, porém as paisagens pagavam o preço da viagem quase suicida.

Nosso grupo, como já mencionei, era muito divertido. Todo o caminho tentamos contato com os estrangeiros da van. Viajamos com três israelitas que estavam fazendo um mochilão pela América do Sul. Um deles falava um ótimo espanhol, além de inglês; a israelita falava um espanhol ruim, e um ótimo inglês; o terceiro apenas observava nossos diálogos que não pareciam fazer sentido para ele. A moça, pelo que pareceu a meus companheiros, gostou de mim, hehe, sou garanhão.

Os dois rapazes de Israel - o risonho fala bem o espanhol

 Eles contaram que em Israel, todos são obrigados a frequentar o exército por dois anos, com a opção de ficar um ano extra, ganhando por isso.  Com o dinheiro juntado eles resolveram viajar. Apesar de parecerem muito amigos o grupo se conheceu durante a viagem. 

Os britânicos não falavam espanhol, mas depois de algumas tentativas de diálogo se mostraram muito simpáticos. Eu era o único do grupo que falava um pouco de inglês, os outros, como todo bom latino, se esforçaram muito.

Fizemos uma pequena parada para ir ao banheiro no caminho e outra para almoçar, o que me permitiu algumas lindas fotos. Chegamos à hidrelétrica depois de algumas horas de viagem. O lugar estava cheio de viajantes que caminhavam juntos pelas linhas do trem no meio de uma floresta tropical rumo ao povoado de Machu Picchu, Aguas Calientes. Você pode tomar o trem até Aguas Calientes que custa em torno de $40, R$30,00, mas não sei se vale a pena.


Bora pra Machu?
Preparado para a trilha



















A van nos deixou aí, com promessa de voltar para nos buscar no outro dia. Sem guia, seguimos viagem caminhando em meio à mata. Essas próximas duas horas foram de extremo cansaço e para mim únicas.

Senti-me em um dos muitos filmes de aventura que já assisti. Com a mochila nas costas seguimos por um caminho de fácil acesso. O segredo é seguir os mochileiros e a linha do trem. Não tem erro. A dica é: Não tente caminhos alternativos para não se perder.


Eu me maravilhei com a paisagem verde; o Rio gelado que nos acompanhava com o seu zumbido natural; o clima tropical e o som dos animais. Eu sentia falta do verde e do som dos pássaros. Se tem uma coisa que aprendi vivendo fora do Brasil é que o nosso hino tem razão quando diz: “Nossos bosques têm mais vida", e a Canção do Exílio não foi mais feliz ao afirmar: “ Os pássaros que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá”. O Brasil é muito parecido com o Peru nesse aspecto.


Outro motivo de essa caminhada de duas horas ter sido inesquecível para mim foi o fato de estarmos sempre conversando com pessoas de todo o mundo. A cada novo “ Where are you from?”, nos maravilhávamos com países de todos os lados: Angola, Zimbábue, Cingapura, Estados Unidos, Alemanha, Austrália, Rússia... A troca cultural foi incrível.

Alguns minutos de descanso na trilha

Estar dentro da natureza te proporciona muitas surpresas. Eu, com minha curiosidade, sempre acabava me deparando com alguma paisagem distante ou algo diferente, e parava para tirar fotos ou ver. Muitas vezes fiquei para trás na caminhada. 

Outro momento único foi quando uma espessa chuva começou a cair por entre as árvores. O calor era forte e ninguém se preocupou com ela. A noite começou quando ainda caminhávamos e com ela as estrelas se misturaram com os vaga-lumes que iluminaram a floresta. No Chile, devido ao clima mais frio, é quase impossível encontrar insetos como esses. Os chilenos ficaram maravilhados, e confesso que nesse momento, me senti pleno, apesar do cansaço. Olhávamos para cima, como crianças, em busca das pequenas luzes que nos guiavam para o povoado. Confesso que algumas lágrimas de emoção caíram ao finalizar a caminhada.


Estávamos divididos em dois grupos, e eu estava um pouco preocupado com o outro pessoal  que tinha ficado para trás. Quando finalmente nos juntamos, descobrimos que um de nossos companheiros e meu amigo de faculdade, Bastián, estava passando mal, provavelmente efeito da altitude. 

Na praça principal de Aguas Calientes tive a agradável surpresa de encontrar uma amiga de Santiago e tiramos uma foto para marcar o encontro.

Eu + Jabi, a chilena mais louca, nos encontramos em Aguas Calientes

Cansados e com muita fome, fomos para o nosso hostel para depois jantar em um restaurante próximo, tudo incluso no pacote. Durante o jantar nossos guias  nos passaram as coordenadas. Partiríamos às cinco da manhã do dia seguinte. Era momento de descansar. Percorri um pouco o povoado antes de dormir. É um lugar encantador, muito bem organizado e cheio de turistas. As ruas são bem características e muito bonitas. Lembro-me até hoje que havia vários brasileiros comemorando a vitória do Atlético Mineiro na libertadores. Voltei pro hostel. Fechei os olhos e parece que já tive que acordar.





















Às quatro e meia da manhã já estávamos todos de pé. A adrenalina da caminhada do dia anterior ainda percorria nosso sangue. Durante a madrugada choveu e trovejou muito, o que me preocupou. Tínhamos que comprar nossa passagem de ônibus até Machu Picchu antes de enfrentar a fila. 

Os ônibus para a subida saíam de cinco em cinco minutos. Isso nos custou cerca de R$18,000 apenas a ida, já que pensávamos em voltar a pé. Você tem a opção de ir caminhando ao invés de ir de condução. É uma caminhada de quase duas horas subindo a montanha. Como choveu muito, decidimos não arriscar. 

Estava muito frio e ainda chuviscando. A fila, apesar de grande foi rápida. De ônibus levamos 20 minutos para chegar à entrada de Machu. Estava muito cheia naquela ocasião. Uma fina garoa molhava nossas capas de chuva e uma neblina intensa ameaçava nosso passeio. Nosso guia iria nos esperar em frente ao parque às sete da manhã. Juntamo-nos com ele e começamos nossa caminhada.

Um pouco de Machu Picchu: 


Machu Picchu, significa em quíchua"velha montanha", também chamada "cidade perdida dos Incas", é uma cidade pré-colombiana bem mantida, localizada no topo de uma montanha, a 2400 metros de altitude, no vale do rio Urubamba,  Peru. O lugar é o símbolo mais alegórico do Império Inca,  devido à sua original localização e características geológicas,  e à sua descoberta tardia em 1911. Apenas cerca de 30% da cidade é de construção original, o restante foi reconstruído.
Nunca encontrada pelos espanhóis, foi o professor norte-americano Hiram Bingham quem, à frente de uma expedição da Universidade de Yale, redescobriu e exibiu ao mundo Machu Picchu em 24 de julho de 1911. Este antropólogo, historiador e explorador aficionado da arqueologia. Bingham criou o nome de "a Cidade Perdida dos Incas" através de seu primeiro livro, Lost City of the Incas.
Hoje Machu Picchu é visitada por milhares de turistas, e é uma das novas setes maravilhas do mundo moderno.

Logo de início não podíamos enxergar quase nada devido a neblina. Seguíamos a guia, que contava as histórias de cada construção e cada esquina do lugar. Eu estava muito ansioso. Queria registrar cada instante. Tocar aquelas paredes. Sentir aquele ambiente único. A beleza do lugar é espantadora. As montanhas ao redor se desenham e criam uma atmosfera  surreal.

A neblina e a chuva nos atrapalhou no inicio da visita
É incrível como tudo aquilo ficou perdido durante anos. A inteligência dos incas em preservar sua agricultura, arquitetura, em como se organizavam. É maravilhosa. A forma como as paredes são construídas, como as pedras são expostas e como cada espaço tinha sua utilidade para eles é extraordinário. Conhecer Machu Pichu, além de magnífico, é ter uma aula de história.


O relógio inca
Com o amanhecer, a neblina foi se dissipando aos poucos e pudemos enxergar um pouco melhor. No meio dos pastos, lhamas comiam tranquilamente, enquanto os guardas buscavam pessoas que podiam estar fazendo dano ao parque. Conta-se que a cidade perdida está cedendo devido ao grande número de visitantes, e é por isso que as visitas estão sendo cada vez mais restritas.

A pedra com o formato da montanha. Imagem: Net



Com a neblina, a montanha não podia ser visualizada


 O tempo passou muito rápido durante nossa visita. A viagem com o guia tinha acabado. Tínhamos mais algumas horas para aproveitar para percorrer sozinhos. Apesar  de melhor visibilidade, o frio era intenso. Decidimos tentar subir a montanha Machu Picchu, já que tínhamos comprado a subida.

No meio do caminho da montanha Machu Picchu


Dividimos-nos novamente e fizemos a tentativa. Cansados e um pouco frustrados com a falta de visibilidade, desistimos na metade do caminho, pois nos restava pouco tempo em Machu Picchu. Quando descemos novamente para o parque, o céu começava a se abrir, e avistei uma das imagens que para sempre permanecerão na minha mente. A vista da cidade perdida do alto. As formas e construções mescladas com a vegetação e as montanhas daquela região única nesse mundo. Aquela sensação de plenitude, descrita no início desta postagem, novamente me preencheu e todo e qualquer esforço valeu a pena. Eu me sentia completo.





Alguns momentos valem a pena pelo resto da sua vida
Tiramos várias fotos, já com o tempo mais aberto, e depois de aproveitar nossos últimos minutos em Machu Picchu descemos para então voltarmos até hidrelétrica, onde nossa van nos esperava. Até lá eram três horas de caminhada, mas depois dessa experiência, eu tinha energia para mais de dez horas.
A viagem de hidrelétrica para Cuzco foi mais para descansar. O nosso cansaço venceu nossa aflição com o caminho, e apesar de boa parte da passagem de volta ter sido a noite, eu pouco me preocupei.
No dia seguinte, nos despedimos de Cuzco, uma das cidades mais lindas em que já estive. Nosso próximo destino: Puno, e depois Bolívia.


"Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver." Amyr Klink