" A mente que se abre a uma nova ideia, jamais volta a seu tamanho original." Albert Einstein
Antes de começar a famosa subida
até uma das sete novas maravilhas do mundo, gostaria de tentar descrever uma
sensação que eu só conheci depois que passei a viajar.
Estar em um lugar único é algo
inesquecível, é como ser único também. A sensação é quase indescritível. É como
se todos os seus problemas e pensamentos fossem separados da sua alma e só
existisse você e a natureza. Sentir o vento gelado batendo no rosto; Aquela
sensação de adrenalina percorrendo as veias;
Sentir-se em totalidade. A plenitude invadir seu espírito; Seus sentidos
ficam mais aguçados. Você sente, ouve, percebe, cheira, toca e vê, e parece que
também é sentido. É uma troca privilegiada com o ambiente. São momentos únicos
que acredito eu, sejam excepcionais para a vida de cada pessoa.
Todo o caminho para Machu Picchu
foi exatamente dessa forma que me senti. O cansaço, as dores da caminhada e os
efeitos da altitude não me abalaram. Não senti medo ou receio em momento algum.
Sentia-me renovado pela força da natureza e pela vontade de chegar até a
lendária cidade inca.
Gostaria de pontuar para os
leitores deste blog, o que foi a Civilização Inca, os fundadores de Machu
Picchu.
“Os Incas”foi um império que incluía muitas outras culturas
pré-colombianas e que partiam do Norte do Chile e nordeste da Argentina,
chegando até o sul da atual Colômbia. A Civilização chegou a alcançar quase 20
milhões de pessoas, e sua capital era a atual cidade peruana de Cuzco, o umbigo
do mundo. O soberano maior era o filho do sol, que na sociedade, tinha status
de Deus.
Os Incas foram vencidos pelos espanhóis,e entre as heranças que essa civilização nos
deixou, estão grandes ensinamentos; línguas que até hoje são faladas em alguns
países como o quíchua e aimará; e a famosa e misteriosa Machu Picchu.
...
Nossa partida para Machu foi
cedo. Chegamos à Praça de Armas de Cuzco, onde nossa van estaria nos esperando
às 8 da manhã. Aproveitei que o céu estava muito azul e tirei várias fotos do
lugar encantador. A van se atrasou um
pouco para aumentar a ansiedade.
| A clássica foto do grupo todo antes da partida para a aventura |
| O céu azul de Cuzco |
Levei uma mochila de costas, estilo
mochileiro. Nela, o que encontrei essencial para a caminhada foi bloqueador
solar, remédio para mal-estar, bolachas, repelente para insetos além de muita
água e roupa para calor e frio. Não se esqueça de levar o passaporte, pois em
Machu Picchu você poderá carimbá-lo.
Antes de sairmos de Cuzco passamos
para buscar um grupo de israelitas, e dois britânicos que fariam a viagem
conosco. A viagem de van foi uma aventura inesperada e animada. O caminho até a
hidroelétrica é recheado de perigos. Você passará por meio de rios, zonas de
derrube de pedras, precipícios, e pontos extremamente altos.
Apesar da altitude eu não passei
mal. O que me deixou um pouco tonto foram as longas voltas que o carro dava.
Estive sentado ao lado da janela e do precipício, uma experiência no mínimo aterrorizante.
A cada solavanco, já me imaginava caindo
do meio daquelas pedras. O motorista, monossilábico,
aumentava o tom de adrenalina, pois não parecia nem um pouco preocupado com o
abismo e muito menos com a velocidade. Em vários momentos tivemos que dividir o
espaço, já pequeno, com outro carro que vinha na direção contrária. Eram
minutos de tensão, no qual até os menos nervosos, esticavam o pescoço para
analisar a situação. Apesar da aflição contínua nas horas que duraram essa
viagem, eu me diverti muito. Estava extasiado
com as lindas paisagens.
| As montanhas contrastavam as paisagens verdes |
| A estrada se desenrolava por um precipício entre as montanhas |
O Peru é um dos países mais
lindos do mundo. Montanhas, pastos verdes, rios extensos, aldeias isoladas. Tudo
isso se misturava na minha janela, e aquela sensação de deslumbramento enchia
meu peito. As horas na van foram intermináveis, porém as paisagens pagavam o
preço da viagem quase suicida.
Nosso grupo, como já mencionei, era muito divertido. Todo o caminho tentamos contato com os estrangeiros da van. Viajamos com três israelitas que estavam fazendo um mochilão pela América do Sul. Um deles falava um ótimo espanhol, além de inglês; a israelita falava um espanhol ruim, e um ótimo inglês; o terceiro apenas observava nossos diálogos que não pareciam fazer sentido para ele. A moça, pelo que pareceu a meus companheiros, gostou de mim, hehe, sou garanhão.
| Os dois rapazes de Israel - o risonho fala bem o espanhol |
Eles contaram que em Israel, todos são
obrigados a frequentar o exército por dois anos, com a opção de ficar um
ano extra, ganhando por isso. Com o
dinheiro juntado eles resolveram viajar. Apesar de parecerem muito amigos o grupo se
conheceu durante a viagem.
Os britânicos não falavam
espanhol, mas depois de algumas tentativas de diálogo se mostraram muito
simpáticos. Eu era o único do grupo que falava um pouco de inglês, os outros,
como todo bom latino, se esforçaram muito.
Fizemos uma pequena parada para
ir ao banheiro no caminho e outra para almoçar, o que me permitiu algumas
lindas fotos. Chegamos à hidrelétrica depois de algumas horas de viagem. O lugar
estava cheio de viajantes que caminhavam juntos pelas linhas do trem no meio de
uma floresta tropical rumo ao povoado de Machu Picchu, Aguas Calientes. Você
pode tomar o trem até Aguas Calientes que custa em torno de $40, R$30,00, mas
não sei se vale a pena.
| Bora pra Machu? |
A van nos deixou aí, com promessa de voltar para nos buscar no outro dia. Sem guia, seguimos viagem caminhando em meio à mata. Essas próximas duas horas foram de extremo cansaço e para mim únicas.
Senti-me em um dos muitos filmes
de aventura que já assisti. Com a mochila nas costas seguimos por um caminho de
fácil acesso. O segredo é seguir os mochileiros e a linha do trem. Não tem
erro. A dica é: Não tente caminhos alternativos para não se perder.
Eu me maravilhei com a paisagem
verde; o Rio gelado que nos acompanhava com o seu zumbido natural; o clima
tropical e o som dos animais. Eu sentia falta do verde e do som dos pássaros.
Se tem uma coisa que aprendi vivendo fora do Brasil é que o nosso hino tem
razão quando diz: “Nossos bosques têm mais vida", e a Canção do Exílio não
foi mais feliz ao afirmar: “ Os pássaros que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá”.
O Brasil é muito parecido com o Peru nesse aspecto.
Outro motivo de essa caminhada de
duas horas ter sido inesquecível para mim foi o fato de estarmos sempre
conversando com pessoas de todo o mundo. A cada novo “ Where are you from?”,
nos maravilhávamos com países de todos os lados: Angola, Zimbábue, Cingapura,
Estados Unidos, Alemanha, Austrália, Rússia... A troca cultural foi incrível.
![]() |
| Alguns minutos de descanso na trilha |
Estar dentro da natureza te
proporciona muitas surpresas. Eu, com minha curiosidade, sempre acabava me
deparando com alguma paisagem distante ou algo diferente, e parava para tirar
fotos ou ver. Muitas vezes fiquei para trás na caminhada.
Outro momento único foi quando
uma espessa chuva começou a cair por entre as árvores. O calor era forte e
ninguém se preocupou com ela. A noite começou quando ainda caminhávamos e com
ela as estrelas se misturaram com os vaga-lumes que iluminaram a floresta. No
Chile, devido ao clima mais frio, é quase impossível encontrar insetos como
esses. Os chilenos ficaram maravilhados, e confesso que nesse momento, me senti
pleno, apesar do cansaço. Olhávamos para cima, como crianças, em busca das
pequenas luzes que nos guiavam para o povoado. Confesso que algumas lágrimas de
emoção caíram ao finalizar a caminhada.
Estávamos divididos em dois
grupos, e eu estava um pouco preocupado com o outro pessoal que tinha ficado para trás. Quando finalmente
nos juntamos, descobrimos que um de nossos companheiros e meu amigo de
faculdade, Bastián, estava passando mal, provavelmente efeito da altitude.
Na praça principal de Aguas
Calientes tive a agradável surpresa de encontrar uma amiga de Santiago e
tiramos uma foto para marcar o encontro.
![]() |
| Eu + Jabi, a chilena mais louca, nos encontramos em Aguas Calientes |
Cansados e com muita fome, fomos para o nosso
hostel para depois jantar em um restaurante próximo, tudo incluso no pacote.
Durante o jantar nossos guias nos
passaram as coordenadas. Partiríamos às cinco da manhã do dia seguinte. Era
momento de descansar. Percorri um pouco o povoado antes de dormir. É um lugar
encantador, muito bem organizado e cheio de turistas. As ruas são bem
características e muito bonitas. Lembro-me até hoje que havia vários brasileiros
comemorando a vitória do Atlético Mineiro na libertadores. Voltei pro hostel.
Fechei os olhos e parece que já tive que acordar.
Às quatro e meia da manhã já estávamos todos de pé. A adrenalina da caminhada do dia anterior ainda percorria nosso sangue. Durante a madrugada choveu e trovejou muito, o que me preocupou. Tínhamos que comprar nossa passagem de ônibus até Machu Picchu antes de enfrentar a fila.
Os ônibus para a subida saíam de
cinco em cinco minutos. Isso nos custou cerca de R$18,000 apenas a ida, já que pensávamos
em voltar a pé. Você tem a opção de ir caminhando ao invés de ir de condução. É
uma caminhada de quase duas horas subindo a montanha. Como choveu muito,
decidimos não arriscar.
Estava muito frio e ainda
chuviscando. A fila, apesar de grande foi rápida. De ônibus levamos 20 minutos
para chegar à entrada de Machu. Estava muito cheia naquela ocasião. Uma fina garoa
molhava nossas capas de chuva e uma neblina intensa ameaçava nosso passeio.
Nosso guia iria nos esperar em frente ao parque às sete da manhã. Juntamo-nos
com ele e começamos nossa caminhada.
Um pouco de Machu Picchu:
Machu Picchu, significa
em quíchua"velha montanha", também chamada "cidade perdida dos Incas", é uma cidade pré-colombiana bem mantida, localizada no
topo de uma montanha,
a 2400 metros
de altitude, no vale do rio Urubamba, Peru. O lugar é o símbolo mais alegórico do Império Inca,
devido à sua original localização e
características geológicas,
e à sua descoberta tardia em 1911. Apenas cerca de 30%
da cidade é de construção original, o restante foi reconstruído.
Nunca encontrada pelos espanhóis, foi o professor norte-americano
Hiram Bingham
quem, à frente de uma expedição da Universidade de Yale, redescobriu e exibiu
ao mundo Machu Picchu em 24 de julho de 1911. Este antropólogo,
historiador e explorador aficionado da arqueologia. Bingham criou o nome de
"a Cidade Perdida dos Incas" através de seu primeiro livro, Lost City of the Incas.
Hoje Machu Picchu é visitada por milhares de turistas, e é uma das
novas setes maravilhas do mundo moderno.
Logo de início não podíamos enxergar
quase nada devido a neblina. Seguíamos a guia, que contava as histórias de cada
construção e cada esquina do lugar. Eu estava muito ansioso. Queria registrar
cada instante. Tocar aquelas paredes. Sentir aquele ambiente único. A beleza do
lugar é espantadora. As montanhas ao redor se desenham e criam uma atmosfera surreal.
| A neblina e a chuva nos atrapalhou no inicio da visita |
É incrível como tudo aquilo ficou perdido
durante anos. A inteligência dos incas em preservar sua agricultura, arquitetura,
em como se organizavam. É maravilhosa. A forma como as paredes são construídas,
como as pedras são expostas e como cada espaço tinha sua utilidade para eles é extraordinário.
Conhecer Machu Pichu, além de magnífico, é ter uma aula de história.
| O relógio inca |
![]() |
| A pedra com o formato da montanha. Imagem: Net |
| Com a neblina, a montanha não podia ser visualizada |
O tempo passou muito rápido durante nossa visita. A viagem com o guia tinha acabado. Tínhamos mais algumas horas para aproveitar para percorrer sozinhos. Apesar de melhor visibilidade, o frio era intenso. Decidimos tentar subir a montanha Machu Picchu, já que tínhamos comprado a subida.
| No meio do caminho da montanha Machu Picchu |
Dividimos-nos novamente e fizemos a tentativa. Cansados e um pouco frustrados com a falta de visibilidade, desistimos na metade do caminho, pois nos restava pouco tempo em Machu Picchu. Quando descemos novamente para o parque, o céu começava a se abrir, e avistei uma das imagens que para sempre permanecerão na minha mente. A vista da cidade perdida do alto. As formas e construções mescladas com a vegetação e as montanhas daquela região única nesse mundo. Aquela sensação de plenitude, descrita no início desta postagem, novamente me preencheu e todo e qualquer esforço valeu a pena. Eu me sentia completo.
| Alguns momentos valem a pena pelo resto da sua vida |
A viagem de hidrelétrica para
Cuzco foi mais para descansar. O nosso cansaço venceu nossa aflição com o caminho,
e apesar de boa parte da passagem de volta ter sido a noite, eu pouco me
preocupei.
No dia seguinte, nos despedimos
de Cuzco, uma das cidades mais lindas em que já estive. Nosso próximo destino: Puno,
e depois Bolívia.
"Um
homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias,
imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para
entender o que é seu. Para um dia plantar as suas árvores e dar-lhes
valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a
distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem
precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância
que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou
pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando
deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver." Amyr Klink









