sábado, 9 de novembro de 2013

Mochilão 3 – Cuzco, Ollantaytambo, Águas Calientes e Machu Picchu


" A mente que se abre a uma nova ideia, jamais volta a seu tamanho original." Albert Einstein


Antes de começar a famosa subida até uma das sete novas maravilhas do mundo, gostaria de tentar descrever uma sensação que eu só conheci depois que passei a viajar.

Estar em um lugar único é algo inesquecível, é como ser único também. A sensação é quase indescritível. É como se todos os seus problemas e pensamentos fossem separados da sua alma e só existisse você e a natureza. Sentir o vento gelado batendo no rosto; Aquela sensação de adrenalina percorrendo as veias;  Sentir-se em totalidade. A plenitude invadir seu espírito; Seus sentidos ficam mais aguçados. Você sente, ouve, percebe, cheira, toca e vê, e parece que também é sentido. É uma troca privilegiada com o ambiente. São momentos únicos que acredito eu, sejam excepcionais para a vida de cada pessoa. 

Todo o caminho para Machu Picchu foi exatamente dessa forma que me senti. O cansaço, as dores da caminhada e os efeitos da altitude não me abalaram. Não senti medo ou receio em momento algum. Sentia-me renovado pela força da natureza e pela vontade de chegar até a lendária cidade inca.
Gostaria de pontuar para os leitores deste blog, o que foi a Civilização Inca, os fundadores de Machu Picchu.


“Os Incas”foi um império que incluía muitas outras culturas pré-colombianas e que partiam do Norte do Chile e nordeste da Argentina, chegando até o sul da atual Colômbia. A Civilização chegou a alcançar quase 20 milhões de pessoas, e sua capital era a atual cidade peruana de Cuzco, o umbigo do mundo. O soberano maior era o filho do sol, que na sociedade, tinha status de Deus.
Os Incas foram vencidos pelos espanhóis,e  entre as heranças que essa civilização nos deixou, estão grandes ensinamentos; línguas que até hoje são faladas em alguns países como o quíchua e aimará; e a famosa e misteriosa Machu Picchu.
...
Nossa partida para Machu foi cedo. Chegamos à Praça de Armas de Cuzco, onde nossa van estaria nos esperando às 8 da manhã. Aproveitei que o céu estava muito azul e tirei várias fotos do lugar encantador.  A van se atrasou um pouco para aumentar a ansiedade.

A clássica foto do grupo todo antes da partida para a aventura

O céu azul de Cuzco

 Levei uma mochila de costas, estilo mochileiro. Nela, o que encontrei essencial para a caminhada foi bloqueador solar, remédio para mal-estar, bolachas, repelente para insetos além de muita água e roupa para calor e frio. Não se esqueça de levar o passaporte, pois em Machu Picchu você poderá carimbá-lo.

Antes de sairmos de Cuzco passamos para buscar um grupo de israelitas, e dois britânicos que fariam a viagem conosco. A viagem de van foi uma aventura inesperada e animada. O caminho até a hidroelétrica é recheado de perigos. Você passará por meio de rios, zonas de derrube de pedras, precipícios, e pontos extremamente altos. 

Apesar da altitude eu não passei mal. O que me deixou um pouco tonto foram as longas voltas que o carro dava. Estive sentado ao lado da janela e do precipício, uma experiência no mínimo aterrorizante. A cada  solavanco, já me imaginava caindo do meio daquelas pedras.  O motorista, monossilábico, aumentava o tom de adrenalina, pois não parecia nem um pouco preocupado com o abismo e muito menos com a velocidade. Em vários momentos tivemos que dividir o espaço, já pequeno, com outro carro que vinha na direção contrária. Eram minutos de tensão, no qual até os menos nervosos, esticavam o pescoço para analisar a situação. Apesar da aflição contínua nas horas que duraram essa viagem, eu me diverti muito. Estava  extasiado com as lindas paisagens.  



As montanhas contrastavam as paisagens verdes



A estrada se desenrolava por um precipício entre as montanhas


 O Peru é um dos países mais lindos do mundo. Montanhas, pastos verdes, rios extensos, aldeias isoladas. Tudo isso se misturava na minha janela, e aquela sensação de deslumbramento enchia meu peito. As horas na van foram intermináveis, porém as paisagens pagavam o preço da viagem quase suicida.

Nosso grupo, como já mencionei, era muito divertido. Todo o caminho tentamos contato com os estrangeiros da van. Viajamos com três israelitas que estavam fazendo um mochilão pela América do Sul. Um deles falava um ótimo espanhol, além de inglês; a israelita falava um espanhol ruim, e um ótimo inglês; o terceiro apenas observava nossos diálogos que não pareciam fazer sentido para ele. A moça, pelo que pareceu a meus companheiros, gostou de mim, hehe, sou garanhão.

Os dois rapazes de Israel - o risonho fala bem o espanhol

 Eles contaram que em Israel, todos são obrigados a frequentar o exército por dois anos, com a opção de ficar um ano extra, ganhando por isso.  Com o dinheiro juntado eles resolveram viajar. Apesar de parecerem muito amigos o grupo se conheceu durante a viagem. 

Os britânicos não falavam espanhol, mas depois de algumas tentativas de diálogo se mostraram muito simpáticos. Eu era o único do grupo que falava um pouco de inglês, os outros, como todo bom latino, se esforçaram muito.

Fizemos uma pequena parada para ir ao banheiro no caminho e outra para almoçar, o que me permitiu algumas lindas fotos. Chegamos à hidrelétrica depois de algumas horas de viagem. O lugar estava cheio de viajantes que caminhavam juntos pelas linhas do trem no meio de uma floresta tropical rumo ao povoado de Machu Picchu, Aguas Calientes. Você pode tomar o trem até Aguas Calientes que custa em torno de $40, R$30,00, mas não sei se vale a pena.


Bora pra Machu?
Preparado para a trilha



















A van nos deixou aí, com promessa de voltar para nos buscar no outro dia. Sem guia, seguimos viagem caminhando em meio à mata. Essas próximas duas horas foram de extremo cansaço e para mim únicas.

Senti-me em um dos muitos filmes de aventura que já assisti. Com a mochila nas costas seguimos por um caminho de fácil acesso. O segredo é seguir os mochileiros e a linha do trem. Não tem erro. A dica é: Não tente caminhos alternativos para não se perder.


Eu me maravilhei com a paisagem verde; o Rio gelado que nos acompanhava com o seu zumbido natural; o clima tropical e o som dos animais. Eu sentia falta do verde e do som dos pássaros. Se tem uma coisa que aprendi vivendo fora do Brasil é que o nosso hino tem razão quando diz: “Nossos bosques têm mais vida", e a Canção do Exílio não foi mais feliz ao afirmar: “ Os pássaros que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá”. O Brasil é muito parecido com o Peru nesse aspecto.


Outro motivo de essa caminhada de duas horas ter sido inesquecível para mim foi o fato de estarmos sempre conversando com pessoas de todo o mundo. A cada novo “ Where are you from?”, nos maravilhávamos com países de todos os lados: Angola, Zimbábue, Cingapura, Estados Unidos, Alemanha, Austrália, Rússia... A troca cultural foi incrível.

Alguns minutos de descanso na trilha

Estar dentro da natureza te proporciona muitas surpresas. Eu, com minha curiosidade, sempre acabava me deparando com alguma paisagem distante ou algo diferente, e parava para tirar fotos ou ver. Muitas vezes fiquei para trás na caminhada. 

Outro momento único foi quando uma espessa chuva começou a cair por entre as árvores. O calor era forte e ninguém se preocupou com ela. A noite começou quando ainda caminhávamos e com ela as estrelas se misturaram com os vaga-lumes que iluminaram a floresta. No Chile, devido ao clima mais frio, é quase impossível encontrar insetos como esses. Os chilenos ficaram maravilhados, e confesso que nesse momento, me senti pleno, apesar do cansaço. Olhávamos para cima, como crianças, em busca das pequenas luzes que nos guiavam para o povoado. Confesso que algumas lágrimas de emoção caíram ao finalizar a caminhada.


Estávamos divididos em dois grupos, e eu estava um pouco preocupado com o outro pessoal  que tinha ficado para trás. Quando finalmente nos juntamos, descobrimos que um de nossos companheiros e meu amigo de faculdade, Bastián, estava passando mal, provavelmente efeito da altitude. 

Na praça principal de Aguas Calientes tive a agradável surpresa de encontrar uma amiga de Santiago e tiramos uma foto para marcar o encontro.

Eu + Jabi, a chilena mais louca, nos encontramos em Aguas Calientes

Cansados e com muita fome, fomos para o nosso hostel para depois jantar em um restaurante próximo, tudo incluso no pacote. Durante o jantar nossos guias  nos passaram as coordenadas. Partiríamos às cinco da manhã do dia seguinte. Era momento de descansar. Percorri um pouco o povoado antes de dormir. É um lugar encantador, muito bem organizado e cheio de turistas. As ruas são bem características e muito bonitas. Lembro-me até hoje que havia vários brasileiros comemorando a vitória do Atlético Mineiro na libertadores. Voltei pro hostel. Fechei os olhos e parece que já tive que acordar.





















Às quatro e meia da manhã já estávamos todos de pé. A adrenalina da caminhada do dia anterior ainda percorria nosso sangue. Durante a madrugada choveu e trovejou muito, o que me preocupou. Tínhamos que comprar nossa passagem de ônibus até Machu Picchu antes de enfrentar a fila. 

Os ônibus para a subida saíam de cinco em cinco minutos. Isso nos custou cerca de R$18,000 apenas a ida, já que pensávamos em voltar a pé. Você tem a opção de ir caminhando ao invés de ir de condução. É uma caminhada de quase duas horas subindo a montanha. Como choveu muito, decidimos não arriscar. 

Estava muito frio e ainda chuviscando. A fila, apesar de grande foi rápida. De ônibus levamos 20 minutos para chegar à entrada de Machu. Estava muito cheia naquela ocasião. Uma fina garoa molhava nossas capas de chuva e uma neblina intensa ameaçava nosso passeio. Nosso guia iria nos esperar em frente ao parque às sete da manhã. Juntamo-nos com ele e começamos nossa caminhada.

Um pouco de Machu Picchu: 


Machu Picchu, significa em quíchua"velha montanha", também chamada "cidade perdida dos Incas", é uma cidade pré-colombiana bem mantida, localizada no topo de uma montanha, a 2400 metros de altitude, no vale do rio Urubamba,  Peru. O lugar é o símbolo mais alegórico do Império Inca,  devido à sua original localização e características geológicas,  e à sua descoberta tardia em 1911. Apenas cerca de 30% da cidade é de construção original, o restante foi reconstruído.
Nunca encontrada pelos espanhóis, foi o professor norte-americano Hiram Bingham quem, à frente de uma expedição da Universidade de Yale, redescobriu e exibiu ao mundo Machu Picchu em 24 de julho de 1911. Este antropólogo, historiador e explorador aficionado da arqueologia. Bingham criou o nome de "a Cidade Perdida dos Incas" através de seu primeiro livro, Lost City of the Incas.
Hoje Machu Picchu é visitada por milhares de turistas, e é uma das novas setes maravilhas do mundo moderno.

Logo de início não podíamos enxergar quase nada devido a neblina. Seguíamos a guia, que contava as histórias de cada construção e cada esquina do lugar. Eu estava muito ansioso. Queria registrar cada instante. Tocar aquelas paredes. Sentir aquele ambiente único. A beleza do lugar é espantadora. As montanhas ao redor se desenham e criam uma atmosfera  surreal.

A neblina e a chuva nos atrapalhou no inicio da visita
É incrível como tudo aquilo ficou perdido durante anos. A inteligência dos incas em preservar sua agricultura, arquitetura, em como se organizavam. É maravilhosa. A forma como as paredes são construídas, como as pedras são expostas e como cada espaço tinha sua utilidade para eles é extraordinário. Conhecer Machu Pichu, além de magnífico, é ter uma aula de história.


O relógio inca
Com o amanhecer, a neblina foi se dissipando aos poucos e pudemos enxergar um pouco melhor. No meio dos pastos, lhamas comiam tranquilamente, enquanto os guardas buscavam pessoas que podiam estar fazendo dano ao parque. Conta-se que a cidade perdida está cedendo devido ao grande número de visitantes, e é por isso que as visitas estão sendo cada vez mais restritas.

A pedra com o formato da montanha. Imagem: Net



Com a neblina, a montanha não podia ser visualizada


 O tempo passou muito rápido durante nossa visita. A viagem com o guia tinha acabado. Tínhamos mais algumas horas para aproveitar para percorrer sozinhos. Apesar  de melhor visibilidade, o frio era intenso. Decidimos tentar subir a montanha Machu Picchu, já que tínhamos comprado a subida.

No meio do caminho da montanha Machu Picchu


Dividimos-nos novamente e fizemos a tentativa. Cansados e um pouco frustrados com a falta de visibilidade, desistimos na metade do caminho, pois nos restava pouco tempo em Machu Picchu. Quando descemos novamente para o parque, o céu começava a se abrir, e avistei uma das imagens que para sempre permanecerão na minha mente. A vista da cidade perdida do alto. As formas e construções mescladas com a vegetação e as montanhas daquela região única nesse mundo. Aquela sensação de plenitude, descrita no início desta postagem, novamente me preencheu e todo e qualquer esforço valeu a pena. Eu me sentia completo.





Alguns momentos valem a pena pelo resto da sua vida
Tiramos várias fotos, já com o tempo mais aberto, e depois de aproveitar nossos últimos minutos em Machu Picchu descemos para então voltarmos até hidrelétrica, onde nossa van nos esperava. Até lá eram três horas de caminhada, mas depois dessa experiência, eu tinha energia para mais de dez horas.
A viagem de hidrelétrica para Cuzco foi mais para descansar. O nosso cansaço venceu nossa aflição com o caminho, e apesar de boa parte da passagem de volta ter sido a noite, eu pouco me preocupei.
No dia seguinte, nos despedimos de Cuzco, uma das cidades mais lindas em que já estive. Nosso próximo destino: Puno, e depois Bolívia.


"Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver." Amyr Klink

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Mochilão Parte 2



 Apesar da demora em escrever essa segunda parte da minha aventura, estou aqui para isso. Nesse texto vou falar sobre Arequipa e Cuzco. Bora lá?

Retomando as rédeas. Tínhamos parado em Arequipa, a cidade dos vulcões.
 Logo quando íamos chegando, de longe já avistávamos o majestoso " Misti". Conhecido como o "Senhor", é um dos três vulcões guardiões de Arequipa,  e o mais chamativo por seu formato de cone. O "Misti" tem relatos de cinco erupções no século XIX, sendo a última em 1870.

Nosso grupo quase completo, e o imponente Misti ao fundo


 Arequipa é segunda maior cidade do Peru. Com seus quase 2 milhões de habitantes, está localizada no meio de um oásis em um vale de montanhas desérticas e é uma referência cultural e histórica do país, recebendo turistas durante todo o ano. 
Um fato sobre o Peru: Se prepare para um país diferente. Você encontrará nas ruas, em um primeiro momento, uma confusão de carros, pedestres e até mesmo animais, mas que para os peruanos faz muito sentido. O país preserva muito bem a sua cultura indígena, tanto que muitos dos nativos ainda falam línguas ancestrais como o quíchua. A cor de pele e os olhos mestiços também evidenciam essa característica marcante.

Enquanto caminhava por Arequipa e conhecia um pouco mais do povo peruano, pude perceber que a população é muito acolhedora. Mesmo com o seu tom tímido, mas que se permite vencer com um sorriso ou um "Gracias", eles fazem de tudo para nos sentirmos em casa. O país é um dos mais encantadores da América Latina,  justamente por sua genuinidade, graciosidade e a suas lindas paisagens que vão desde o deserto até a Amazônia. Machu Piccho é só um bis para os amantes de aventura. 

Nas ruas da segunda maior cidade do Peru, você poderá conhecer a gastronomia e artesanato da população, além da diversidade cultural. O espanhol se mistura com as línguas indígenas; os peruanos e o seu traje típico e colorido; as fotos com as lhamas e o famoso "helado de queso" ( sorvete de queijo) são algumas das atrações da cidade. 

Praça de Armas - Arequipa


Em Arequipa ficamos por dois dias. Nosso albergue era simples. Por sorte o chuveiro esquentava, às vezes, e não tinha internet.. Ele nos custou 17 reais pela noite, e a dona foi muito gentil nos permitindo guardar nossas mochilas enquanto percorríamos.

O albergue em Arequipa


Na cidade vigiada pelos vulcões, fizemos um tour que nos saiu a bagatela de R$7,00. O valor correto era R$30,00, porém, como entramos depois e éramos um grupo de dez, encontramos um homem na rua que nos colocou no ônibus junto a turistas de vários países, por esse preço. 

A peruana oferecia seu pássaro para uma foto, em troca de moedas


Visitamos a famosa "Plaza de Armas" e a sua magnífica catedral, além de uma empresa que faz roupa com a pele de Lhamas. O Yanahuara, uma espécie de charmoso portal que leva inscrito versos de poetas foi meu local favorito. Neste lugar é possível avistar perfeitamente o vale dos vulcões e uma bela extensão verde de Arequipa. O tour valeu muito a pena, porém tivemos que deixá-lo na metade, pois precisávamos partir. 

Poesia no Mural


Os três guardiões e a cidade de Arequipa ficava pra trás, e a famosa Cuzco, o umbigo do mundo, era nosso próximo destino.

Outro fato sobre a nossa viagem: Sempre procurávamos sair de madrugada para economizar estadia. Como já mencionei, optávamos sempre pelo mais barato, portanto os ônibus não eram confortáveis. Muitas pessoas viajavam em pé durante o percorrido, por sorte, não foi o nosso caso.

Ansiosos, mas cansados,  partimos para a antiga capital do império Inca ainda de noite. Essa viagem ficou marcada na minha memória, pois além de pouco dormir, aconteceu um fato que me deixou triste. 

O ônibus levava poucas pessoas. Além de nós, cerca de quatro peruanos e dois alemães que viviam no Peru. A viagem para Cuzco durou  oito horas, e apesar de viajarmos de noite, era possível perceber a péssima condição das estradas e o frio intenso que fazia lá fora. 

Nosso grupo era bem animado. Os chilenos adoram falar e fazer festa, assim como brasileiros, e em vários momento durante a viagem fizemos brincadeiras, cantamos e eles contaram piadas. O clima só ficou pesado, quando em uma parada, o nosso motorista ( que insistiu em colocar um péssimo filme para assistimos ) esqueceu uma das passageiras. A pobre senhora peruana viajava sozinha e desceu correndo para ir ao banheiro quando o veículo parou em um lugar ermo e isolado da estrada. Eu estava dormindo, mas acordei quando meus amigos se perguntavam: " Donde está la señora? Que pasó?". Avisamos o condutor, porém, ele resolveu não voltar para buscá-la, pois " Es muy peligroso volver ahora". Imaginei-me naquela situação: No meio do nada, no escuro, sem dinheiro, frio e sem saber onde estava. Não consegui dormir até chegar a Cuzco.

Minha primeira impressão da cidade não foi muito boa. Talvez por ter sido capital de um império, eu imaginava uma cidade com palácios e ruas majestosas. Mas Cuzco é apenas mais uma cidade em um primeiro momento. Localizada no meio de um vale e rodeada de morros, de longe, as casinhas se parecem até com uma favela, empilhadas umas nas outras no meio das montanhas. Mas, é só se aproximar para perceber o charme dos becos e construções. 


















Logo na rodoviária já fomos muito assediados pelos taxistas e donos de albergues, que chegam a brigar por um cliente. Cada um oferecia um preço e um benefício que o outro não tinha. O valor diminuía muito, e o que já era barato ficava até engraçado. No final optamos por uma senhora que nos ofereceu um valor de R$12,00/pessoa. Ao chegarmos ao local, nos decepcionamos. Teríamos que compartilhar o quarto com outros estrangeiros, e desde o início nós sempre buscávamos ficar juntos. Resolvemos procurar outro lugar, até que encontramos um muito bom, pelo preço de R$14,00/pessoa. O " El Artesano", oferecia banho quente, internet, cozinha além de um porteiro muito simpático que muito nos ajudou.

Um pouco sobre Cuzco ( ou Cusco ): É uma cidade situada no Vale Sagrado dos Incas na região da cordilheira dos Andes. A população é de 300 mil habitantes, e está em uma altitude de 3.400 metros, fato que explica o motivo de nos cansarmos tão rápido ao caminhar pelas ruas da cidade.
O local era a conhecida capital do Império Inca, pra quem não sabe,  foi uma civilização que envolvia culturas pré-colombianas que existiu de 1.200 até a colonização espanhola. Com mais de 700 línguas e abrangendo regiões de Chile, Equador, Peru, Bolívia, Argentina e Colômbia, o Império deixou enormes riquezas arqueológicas e culturais para os países onde existiu.

Caminhar pelas ruas da cidade era um pouco complicado pelo fato do cansaço ser rápido. Não estamos acostumados com altitude,  portanto é bom se prevenir. Os nativos sugerem mastigar a folha da CoCa, que no Peru é liberada, porém eu não necessitei. Apenas tomei um comprimido que custa R$5,00 em qualquer farmácia. É só explicar o motivo que eles sabem qual é.

Durante o dia conhecemos o mercado municipal, no qual tomei um gostoso suco de laranja. O lugar me deixou um pouco receoso para almoçar, já que a carne fica bem exposta, e digamos que não é muito higiênico. Almoçamos frango com batata frita, uma especialidade peruana. Depois que voltamos pro Chile, queríamos passar longe desse prato de tanto que comemos. As refeições variam de absurdos três reais até quinze, vinte, depende do lugar.

Comer no Peru exige um pouco de atenção. A comida é ótima, porém para escolher um restaurante é necessário prestar atenção na forma como eles fazem. Às vezes compensa pagar um pouco mais e evitar uma indigestão. Um fato curioso é que em alguns lugares eles servem o suco quente. Quando eu digo quente, é quente mesmo, fervendo. Segundo uma moradora “é pra espantar o frio”. Vai saber, rs.

A noite em Cuzco é maravilhosa. A agitação noturna dos turistas caminhando pelos becos históricos da cidade; a música típica misturada com as cores dos cachecóis e gorros andinos vendidos pelas lojas e calçadas; a população que te convida a conhecer seu artesanato; e a encantadora "Plaza de Armas" ( toda cidade tem uma por lá ) fazem com que você se apaixone por esse lugar.



Cuzco en la Noche


Em Cuzco aproveitei também pra comprar vários presentinhos. Os valores são melhores em Puno, minha outra parada, porém no " umbigo do mundo" encontrei chaveiros, camisetas, gorrinhos e artigos para presentes. Os valores variam, mas todos barato. Uma camiseta custava em torno de R$6,00, enquanto um chaveiro você pagava três por R$4,00. Vale a pena levar uma recordação.

Depois de andarmos, tirarmos muitas fotos e conhecermos bastante dessa cidade, fomos comprar nossas entradas para Machu Piccho. Antes de tudo, pedimos informações para a polícia peruana. Eles não nos ajudaram muito, mas foram simpáticos.

Na praça de Cuzco, onde fica a bela catedral, é possível encontrar diversas agências que fazem a excursão. Você deve pesquisar preços e ver o que melhor se encaixa no seu bolso. Nós optamos por um pacote que incluía transporte, estadia, jantar e café da manhã ( em Águas Calientes ), guia e a entrada para Machu.  Nosso ingresso com tudo incluso ficou no valor de U$$105,00, em torno de R$230,00. Foi o pacote mais caro da nossa viagem, mas valeu a pena. 



A foto antes da saída pra Machu Piccho

As visitas à cidade perdida estão restritas a certo número de pessoas por dia, desde que se descobriu que o local está cedendo a cada ano, devido ao grande número de visitantes. Machu Piccho foi escolhida como uma das novas sete maravilhas do mundo moderno, e se transformou em um polo turístico. Negociamos com o dono da agência, agendamos para o outro dia nossa partida e ficamos e faltava nos preparar.

Passagens compradas para Machu Piccho, devíamos descansar e curtir um pouco mais de Cuzco. Partimos cedo no dia seguinte para a aventura mais esperada de todas, mas isso fica pro próximo post.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Mochilão Chile - Peru - Bolivia - 1ª Parte



 Como tem muita coisa para contar do mochilão e eu gostaria de dar detalhes, resolvi dividir os textos em três partes. Na primeira, contar como foi a partida até chegar na cidade de Arequipa. Na segunda parte: Arequipa - Cuzco - Macho Picchu. E na terceira: Puno - Bolívia e o retorno para a casa. Aqui vai a primeira da minha aventura.




Nós partimos para a cidade de Arica na noite do dia 20 de julho deste ano. Éramos um grupo de dez pessoas, no qual eu era o único brasileiro. O restante eram chilenos. Nosso bando incluía uma linda criança de oito anos. O que no principio parecia impossível para ela, foi uma grande surpresa, pois além de fazer todo o caminho até Macho Picchu bravamente, foi uma das poucas que não sentiu a força da altitude.

Agora voltando ao nosso roteiro de mochilão. Saímos de Santiago na madrugada do dia 20 para o dia 21 de Julho. 

Arica é uma cidade que faz fronteira com o Peru e ponto de partida para grupos de mochileiros que pretendem desvendar aquelas terras. Antigamente a região foi domínio peruano, mas depois da famosa Guerra do Pacifico passou à administração chilena. Apesar de estar em território do Chile, você já se sente no Peru, pois a população é mesclada e a forte influência peruana  na cidade é notável. Arica é uma cidade litorânea e possui um porto, mas, apesar de ser o destino do nosso avião, não era nossa intenção em um primeiro momento conhecê-la.

Falando em intenções, vou descrever brevemente qual seria nossa possível rota.
Planejamos pegar um avião de Santiago a Arica, com duração de três horas. Em Arica teríamos que partir logo no inicio para o Peru, mas especificamente para a cidade de Tacna. Por sua vez, Tacna não seria um lugar a se conhecer, já que não oferece muitos pontos turísticos. Nossa intenção era ir diretamente para a cidade de Puno, que fica como oito horas do local. De Puno seguir para Cuzco e aí montar nossa rota para Macho Picchu. Depois de Macho Picchu voltaríamos para Cuzco e depois Puno, mas somente para pegar um ônibus e irmos para a Bolívia, já que a cidade é fronteiriça. Ufa, quanta coisa, hehe.

Nesse mapa, é possível verificar nossa rota


Na Bolívia seguiríamos para Copacabana ( não é a praia carioca ). Lá conheceríamos a Ilha do Sol, para então voltarmos a Puno, novamente Tacna, e finalizando em Arica. Nosso voo de retorno estava marcado para o dia 31 de julho. Parece complicado, mas é uma das rotas mais feitas para quem deseja conhecer Macho Picchu e Ilha do Sol partindo do Chile.

É claro que isso era o nosso planejado, mas uma coisa que não se deve esquecer quando se faz um mochilão, é: Nem tudo dá certo. Sim, tivemos que alterar nossa rota e mudar algumas coisas, mas nada que alterasse o nosso plano original de conhecer Macho Picchu e Bolívia. 

Chegamos em Arica as três e meia da manhã. Não existiam ônibus partindo para o Peru nesse horário, portanto, tivemos que esperar até as 8hrs, quando tudo começaria a funcionar. Nossa aventura começou nesse momento, quando decidimos dormir no aeroporto. Colocamos as mochilas no chão, pegamos nossas mantas e “descansamos” o tempo que a madrugada nos reservara.  A opção “pagar um hotel” era impensável, já que estavamos em regime de economia. Eu não consegui dormir. Apenas fechei os olhos para enganar o meu corpo. Quando o sol surgiu pegamos um taxi até o terminal de ônibus de Arica. 

Dormir no aeroporto foi um sacrifício pelas economias


O terminal é um pouco confuso, portanto deve-se tomar cuidado e colocar bastante atenção. Você tem duas opções. Ou você pega um taxi que te deixa no Peru por um preço um pouco maior ( Cerca de R$20,00 ) ou você vai de ônibus. Só não espere conforto, pois os ônibus são simples e às vezes não muito seguros. O ônibus nos custou R$10,00 por pessoa. Importante é não se esquecer dos documentos que a aduana pede. Você deve estar com sua identidade ou passaporte disponível.
Agora descrevendo um pouco da paisagem que a fronteira entre Chile e Peru proporciona. A região é desértica. Você se sentirá em um filme naquelas estradas estreitas e aquela paisagem de areia sem fim. Não deixa de ter seu encanto. O ar também é muito seco.

Estrada. Chegado no Peru
 A viagem de Arica a Tacna dura em torno de 2 horas com a passagem nas aduanas do Peru e do Chile. 

Uma dica muito importante é sobre a língua. O espanhol não é uma língua tão fácil quanto imaginam os brasileiros. Você pode se enrolar facilmente. Tente ir pro seu mochilão preparado, nem que for com um dicionário. O inglês ajuda muito na comunicação com estrangeiros de todo o mundo, mas os peruanos geralmente não falam inglês. O espanhol deles é um das melhores da América do Sul, mas como a população tem uma forte influência indígena, boa parte deles fala o quéchua, que é a antiga língua inca. Alguns falam mais quéchua que espanhol, então complica um pouco na comunicação, até mesmo pra um hispânico nativo.

Falando em Peru, vou passar algumas informações sobre o país:

O Vermelho é estandarte inca e o branco a paz - Bandeira do Peru
 
   O Peru é um país localizado na América do Sul e tem uma população de 28 milhões de pessoas, que possuem uma forte influência indígena e europeia. A sua capital é Lima, e entre as principais cidades estão Arequipa e Cuzco. O Peru se tornou um importante polo turístico depois da descoberta da lendária cidade inca de Macho Picchu.
Entre a cordilheira dos Andes e uma densa selva, o norte-americano Hiram Bingham quem, à frente de uma expedição da Universidade de Yale, redescobriu e apresentou ao mundo Machu Picchu em 24 de julho de 1911. Desde então, o local recebe visitas todos os anos e é considerado patrimonial mundial pela UNESCO.
Além de ser berço de uma das mais importantes impérios no mundo, os Incas, o Peru encanta por sua diversidade e belezas naturais, que vão desde o Deserto de Nazca e as imponentes montanhas dos Andes até a floresta Amazônica. 

Voltando... Chegando em Tacna ficamos um pouco assustados. Estar em um outro país é respeitar as suas diferenças, o seu povo, e a sua cultura. O Peru é um lugar bem diferente do que estamos acostumados. O trânsito tem a sua própria lógica ( caótica seria a palavra para os brasileiros ), e você encontrará a influência indígena em todos os lados, desde a comida até a artesania.

Já na fronteira Chile - Peru, apesar do calor do deserto, o vento deixava tudo frio


 Em Tacna fomos logo advertidos por um policial. “ Vocês vão tomar cuidado para não serem assaltados”. É óbvio que ficamos com mais medo depois disso. Como éramos um grupo grande, e todos com mochilas e com um tom de pele diferente da população peruana, éramos facilmente notados como turistas.

A cidade seria nosso ponto de troca de moeda, portanto, tínhamos que redobrar o cuidado. Cada um de nós trocou cento e cinquenta mil pesos chilenos ( naquela época eu morava no Chile ), isso foi convertido em 800 soles ( sol é a moeda peruana ). Convertendo na data de hoje ( 04/09/2013) seriam R$696,00 ou oitocentos e vinte e sete soles. Nosso plano era economizar com comida e hospedagem, sempre procurando os lugares mais baratos e próximos do centro.

Trocamos o dinheiro e fomos buscar uma companhia de ônibus que nos levasse até a cidade de Puno. No terminal, nos sentíamos como carne fresca. Fomos assediados por todo tipo de vendedor que nos oferecia a cada vez mais barato a viagem. Nosso plano era Puno, mas fomos convencidos por um peruano a irmos a Arequipa. “ A viagem até Puno é mais complicada e perigosa. Compensa vocês irem para Arequipa, que é uma cidade linda, e depois para Cuzco, Além do mais, sai mais barato.” A viagem nos custou como R$15,000 e teve uma duração de 7 horas. Resolvemos seguir o conselho do peruanos e ir para Arequipa.

Paisagens Desérticas na fronteira entre os dois países


Como já mencionei antes, os ônibus no Peru são um pouco complicados. É claro que essa visão é comprometida pelo fato de nós sempre termos escolhido companhias baratas. Nossa opção de Tacna-Arequipa foi a empresa “Flores”, e de coração eu não a recomendo. O caminho para Arequipa é encantador. Uma beleza que misturava montanhas, selva e deserto. O problema era o ônibus que não oferecia nem um tipo de segurança e as estradas que também deixavam muito a desejar. Viajamos por precipícios, subindo montanhas e descemos. Sem contar o calor que fazia. Não tinha ar condicionado ( é óbvio que não ), e o sol era arrebatador. Apesar dos pesares e de pensarmos em vários momentos que não chegaríamos ao nosso destino, Chegamos a Arequipa, a cidade dos vulcões, e a partir de aqui, eu conto na próxima postagem, pois são muitas aventuras que seguem.

Uma foto só pra dar um gostinho de Arequipa - A cidade dos vulcões