domingo, 5 de julho de 2015

Uma História escrita A Sangue Frio


Era uma manhã fria de domingo, uma manhã em que o outono começava a mesclar-se com o inverno e o ar era seco e cortante. Permitiu-se acordar um pouco tarde, nas horas seguintes ao almoço. Havia bebido além da conta no dia anterior, 14 de novembro, e uma dor de cabeça inconfundível de ressaca teimava em martelar, querendo ganhar vida, almejando estragar as poucas horas do fim de semana que ainda restavam.  Demorou-se alguns minutos até tomar a decisão de sair da cama para começar suas tarefas diárias e resolveu que antes de tudo tomaria um café, sem açúcar como era seu habitual. Vestiu-se e com a dor-de-cabeça aumentando saiu para comprar o café e o jornal do dia. Não desejou “bom dia” ao porteiro, como sempre fazia, apenas passou evitando olhares e conversas desnecessárias. Só queria um pouco de paz.
O dia estava incomum para um domingo frio: muita gente na rua, muito barulho. Comprou o New York Times pensando no seu apartamento quente e na possibilidade de passar o resto do dia na cama. Não escreveria naquele dia. Já haviam passado dias desde a última vez que escrevera uma única frase completa. Não sentia vontade, simplesmente não queria. As coisas não funcionavam assim para ele, e nas últimas semanas evitava o máximo possível às ligações do seu editor.
Voltou ao apartamento aliviado, sentou-se na cozinha que não limpava desde “não se lembrava quando”, e deu uma passada de olho pelas manchetes do dia. O ano de 1959 seguia sem grandes acontecimentos. O mundo continuava a se dividir entre heróis (americanos, capitalistas) e vilões (russos e comunistas). Tudo parecia seguir o rumo de uma nova guerra. Alheio, ao menos naquele domingo de ressaca, às notícias políticas, o olhar de Truman Capote passava rapidamente pelas páginas do jornal, enquanto bebericava o café forte e sentia o aroma fresco; a língua queimando. Um estranho que o visse de longe imaginaria que ele estava atento a tudo, menos às páginas que folheava sem vontade. Era uma figura estranha, sentada em uma cozinha suja e caótica, com um copo descartável de café e um olhar frio. Era difícil imaginar que daquela cena nasceria um dos maiores livros já publicado na história americana.
Enquanto as grandes manchetes não lhe chamavam a atenção, uma pequena nota isolada em uma página perdida, sem muitos atributos, o fez mudar de posição na cadeira e deixar o café de lado ao menos por um minuto. Eram dois parágrafos sucintos que descreviam a chacina de uma família no interior do Kansas, estado do centro dos Estados Unidos. Uma família inteira assassinada por poucos trocados, de forma brutal e aparentemente sem deixar marcas. Não muito diferente de outros casos que o New York Times já noticiara outras vezes.
Mas foi ali, na tragédia de uma família tipicamente americana, que Capote encontrou vestígios para escrever um dos livros mais emblemáticos do jornalismo e da literatura mundial. Polêmico e desempenhando o papel de jornalista 24 horas por dia, Capote passaria os próximos seis anos de sua vida envolvido naquela história de arrepiar. Uma triste realidade que saiu do anonimato de uma minúscula cidade qualquer para se transformar num relato único e pavoroso.


***


É impossível falar de “A Sangue Frio” sem citar o seu polêmico autor, Truman Capote. Ao ler a pequena notícia sobre a chacina de uma família, o jornalista percebeu que ali nascia a oportunidade de fazer o trabalho da sua vida: Inaugurar o romance de não-ficção. Entre as polêmicas que envolvem o livro e a vida de Capote, a criação de um novo gênero jornalístico (ou seria literário?) é uma das mais questionadas. Muitos afirmam que o romance de não ficção já existia, praticada na mesma revista em que trabalhava Capote, a The New Yorker. Décadas antes John Hersey havia publicado a grande-reportagem (que também se transformou em livro) Hiroshima (1946), que contava o relato de sobreviventes às bombas de Hiroshima e Nagasaki no Japão, durante a segunda guerra mundial.

Truman Capote


O jornalismo de não-ficção,  também conhecido como New Journalism ou Jornalismo literário é um estilo que, de forma a simplificar-se o significado, mistura preceitos jornalísticos (apuração, entrevistas, informações, etc) com literatura, relatando um fato de forma, muitas vezes, mais aprofundada, baseando-se em características psicológicas, descrevendo cenas, lugares, pessoas, etc. O texto é mais longo e é permitida uma visão pessoal do jornalista. Existem várias vertentes do estilo e muitos escritores se fizeram famoso escrevendo esse tipo de literatura, como por exemplo, Tom Wolfe, Gay Talese e Gabriel García Márquez.

A Sangue frio é o resultado de cinco anos de apuração, entrevistas e, por que não, impressões pessoais de Truman Capote sobre a tragédia da família Clutter, assassinada no dia 14 de novembro de 1959 na pequena cidade de Holcomb, Kansas. Truman chegou à cidade cena do crime apenas alguns dias depois da tragédia, e passou anos no local, entrevistando conhecidos, vizinhos, investigadores e os próprios assassinos da família. Em seu relato, ele deixa transparecer o psicológico de Perry Smith e Dick Hickock, os criminosos, revivendo a infância e os traumas dos mesmos. Sabe-se que Capote foi o único com acesso aos criminosos quando ambos já estavam condenados ao corredor da morte. Neste ponto há uma crítica com relação a postura profissional de Capote. Seus críticos afirmam que a relação do escritor com os assassinos passou do campo profissional e tornou-se pessoal, especialmente com Perry Smith; há “teorias” de que ambos mantiveram um caso no período em que Smith esperava a sua condenação.

Em ordem: Perry Smith e Dick Hickock


O fato é que, apesar das polêmicas e das críticas à postura ética de Capote, A Sangue Frio não é apenas um relato cru da cena de um crime, é um romance que se embrenha pela própria sociedade americana, se aprofunda na mente psicopata e, por que não, na justiça americana daquela época.
O livro começa antecipando o principal fato da história: o assassinato dos quatro membros da família Clutter. Aos poucos você vai conhecendo a rotina de uma das famílias mais queridas e respeitadas daquela comunidade; vai se acostumando com a simplicidade de Holcomb (que espera o correio jogado pelas portas de um trem, que nem sequer para na cidade). Você só conhece os detalhes dos assassinatos no mesmo tempo em que os investigadores vão descobrindo pistas e fatos sobre o fato. Os assassinos não são um segredo para o leitor, que nas descrições de Capote vai “entendendo” as motivações de Smith e Hickock. Truman vai fundo e busca explicações nos traumas dos criminosos. Aqui vale um parêntese. A narrativa do livro te leva a crer que Perry Smith, apesar de ter assumido ter atirado nos quatro membros da família, não é o “malvado” da história. Com uma história triste e pobre, Smith é encorajado todo o tempo por Dick a realizar o ato de crueldade. Muitos acreditavam na insanidade de Perry, e alguns críticos afirmam que conhecendo Smith como conheceu, Capote podia ter testemunhado em favor da “loucura” do assassino. Uma questão ética entra em pauta: até que ponto o jornalista pode interferir nos fatos?

Fugindo um pouco das polêmicas, A Sangue Frio segue uma narrativa precisa, onde cada detalhe é exposto e explicado, onde os personagens secundários te ajudam a compreender a realidade de Holcomb e como viviam os Clutter. Você é inserido na história e em alguns momentos é possível que surja uma pergunta. Como Capote poderia saber de tantos detalhes?

Família Clutter


Uma pergunta respondida em quase seis anos de trabalho, que só terminou quando os assassinos foram enforcados em 14 de abril de 1965. Do fatídico dia em que a rotina de Holcomb foi interrompida pelo assassinato da família Clutter ao dia em que os assassinos pagaram por seus crimes, Capote mantém uma descrição dos fatos incrível. É difícil não perceber características que seriam influência para posteriores relatos de jornalismo e literatura. Os dias em que os assassinos passaram à espera no corredor da morte foi uma possível inspiração para Stephen King escrever um de seus livros mais famosos, “The Green Mile” (À espera de um milagre no Brasil). Perry Smith recebia visita de um pequeno animal em sua primeira cela. Era sua única companhia e assim como Eduard Delacroix  treinava o seu ratinho de circo. Os personagens de King também mantém certa semelhança com a descrição de Capote dos companheiros de Smith e Dick no corredor da morte.

Ao terminar A Sangue Frio fica uma sensação gelada no corpo. Ler o livro é como reviver aqueles dias; é transformar-se em um observador, assim como foi Capote, do desenrolar de um dos crimes que abalaram a América. Famílias seguiram sendo assassinadas, criminosos seguiram manchando de sangue comunidades pacíficas por todo o mundo, mas nenhum livro foi capaz de chocar e relatar tão bem como foi A Sangue Frio, já um ícone do jornalismo e da literatura.


No Brasil A Sangue Frio é publicado pela editora Companhia das Letras. Para quem se interessa também há dois excelentes filmes sobre a história. A primeira baseada no livro, que conta a história dos assassinos e de acordo com o enredo do livro. O filme é de 1967 e possui o mesmo título do livro. O outro filme se chama Capote (2005) e é sobre a relação de Capote com a história. Dois ótimos filmes.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Borrão de Lembranças

Hoje é uma data propícia para escrever. Faz exatamente dois meses que estou de retorno ao Chile. Muita coisa aconteceu e o tempo voou, como sempre. É estranho que quando estamos vivendo uma parte boa da nossa vida as coisas passam tão rápido. É quando nos damos conta de que o tempo é incontrolável. O tempo suga as nossas experiências e nos brinda com lembranças... Espero que minha vida seja apenas um borrão por este mundo; apenas fumaça dando sinal de que algo por ali aconteceu. Algo bom. Às vezes é bom parar pra refletir e se dar conta de que muito em breve seremos todos lembrança. Alguns serão recordações eternas, gravadas em livros, fotografias e memórias; outros deixarão de existir assim que o último a se lembrar dele se vá dessa para melhor. Não me importo muito com o que serei desde que seja um “borrão” de momentos únicos e especiais.

Algumas pessoas me perguntaram por que eu não estava mais escrevendo. Esta não era uma constatação verídica, já que o ano de 2015 tem sido de extrema inspiração para mim. Escrevo sim, só não ando publicando no meu blog. Eu nunca quis que o “Universo em Expansão” se tornasse uma obrigação, por tanto nunca me forcei a publicações periódicas. Simplesmente publico quando sinto necessidade de ser escutado, quando preciso que alguém veja o que tenho feito e o que tenho descoberto. Como disse no começo deste texto, foram dois meses em que muitas coisas aconteceram.

A saudade da pátria é inevitável. Eu sou um apaixonado pelo Brasil e toda vez que me afasto de lá me sinto órfão. Uma necessidade nova nasce dentro do meu peito e eu passo a ouvir bossa nova como louco. Procuro referências brasileiras em tudo que vejo, leio e escuto. Esses dois meses de “exílio” me apresentaram artistas que estavam tão perto quando estava em Londrina, que não dava muito atenção. Chico Buarque tem sido o meu cantor, compositor e escritor brasileiro favorito desde o ano passado, mas junto com ele descobri Ney Matogrosso e sua excentricidade; Maysa e sua voz única; Caetano e sua alma apaixonada; Carmen Miranda e seu sorriso extremamente brasileiro. Que cultura linda! Que país incrível! Entristeço-me com as notícias e com o pessimismo de muitos brasileiros, mas estar longe significa querer bem, sentir falta e torcer pelo meu país. Esse é outro lado bom de morar fora: saber o quão bom é o seu lar.

Voltar pra Santiago, desta vez com um propósito desafiante: trabalhar, foi desde o início uma necessidade. Minha vida sempre foi pensada até o dia em que eu receberia meu diploma universitário e tudo estaria bem e perfeito. Não foi bem assim. Desde que comecei a faculdade de jornalismo eu mudei e essas mudanças me fizeram perceber que eu precisava de um tempo longe, precisava conhecer um pouco mais além das minhas fronteiras. O intercâmbio em 2013 me ajudou a confirmar isso, me abriu a mente e me fez descobrir coisas que eu não sabia que existiam. É estranho quando você se percebe diferente, quando tudo que você era parece não fazer sentido e quando o pouco que você tinha já não é suficiente. Entre todos os motivos que me fizeram decidir voltar para o Chile, acho que o maior deles é que foi justamente aqui, nessas ruas e nessas paisagens andinas, que eu me redescobri. Santiago me atrai e eu quero descobrir o que significa essa atração. Pode ser que essa nova aventura por essas terras não tão longínquas não durem muito. Podem durar meses, talvez anos. Eu não me coloquei prazo. Quero apenas viver meus dias de jornalista recém-formado; buscar um emprego que tenho certeza não irá me satisfazer; juntar dinheiro para propósitos que as pessoas chamarão de tontos e conhecer gente, conhecer lugares, conhecer novas miradas e me encantar com o desconhecido.

Cajón del Maipo, nas imediações de Santiago


Nesses dois meses por aqui eu viajei. Viajar é uma paixão que nasceu aqui e que levarei por toda vida. Voltei para lugares que me marcaram e me transformaram. Vivi aventuras que não cabem em fotos, textos ou palavras. Se eu fosse descrever esses momentos, descreveria como um dos borrões mais fortes da minha vida. Eu também comecei uma nova jornada em busca de emprego e não tem sido fácil. Trabalhar na área em que me formei por enquanto não será uma realidade, pois ainda não tenho meu diploma válido em terras chilenas e o processo além de caro é demorado. Tenho procurado empregos que de certa forma me fariam bem. Eu amaria trabalhar no meio de livros ou lidando com o cinema, duas artes que me fascinam. Por enquanto, as coisas têm caminhado e estou esperando que saia meu visto provisório de trabalho, que deve sair nos próximos quinze dias. Houve também alguns momentos de tristeza, não vou negar. Sempre gostei de andar por Santiago, caminhar pelos parques, me sentar e ver o mundo passar. Muitos dias em que nada me resultava bem eu simplesmente me sentava no Parque Forestal, perto de onde estou morando, observava a pressas das pessoas e o apuro em chegar onde quer que seja. O tempo sempre comandando tudo. A melancolia nunca foi um problema pra mim, no entanto, às vezes incomoda.

Salar Uyuni - Bolívia - Uma das minhas viagens



Os dias voaram, muitos momentos passaram e a minha vida tem caminhado bem. Não sei se estou vivendo a minha melhor época, espero que não. Espero que ainda possa pensar muitas vezes que o tempo voou, ficando apenas histórias, lembranças e nostalgia. Afinal a vida é como o tempo: um borrão que colore o horizonte de momentos e no final só resta esquecimento.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Retrospectiva Blogal - Melhores Leituras de 2014

Aproveitando que hoje, 07 de janeiro, é dia do leitor, publico minha lista de melhores leituras do ano de 2014. 

O saldo foi positivo. Foram 40 livros, uma média de 3,33 livros ao mês. Poderia ter sido melhor, mas nos últimos meses do ano foquei no meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) e minhas leituras ficaram em segundo plano.

Neste ano que passou descobri autores incríveis como Gabriel García Márquez, Ira Levin, Lygia Fagundes Telles, entre outros; além de abrir novas possibilidades de leituras, me enveredando para os livros históricos e de política, novo interesse pessoal.

Segue então minha lista das 10 melhores leituras de 2014:


Harry Potter y las Relíquias da la Muerte - J.K.Rowling



Foi na verdade uma releitura da obra fantástica mais importante do século XXI, mas desta vez em uma tradução espanhola. Ler em um outro idioma é uma nova experiência. Consegui me emocionar novamente, reviver aqueles anos em que cresci com Harry e sua turma, época em que eu e meus amigos passávamos horas discutindo os possíveis finais para a série. Lembro-me que enquanto lia as páginas amarelas da minha edição em capa dura da Editora Salamandra, sentia a adrenalina nas partes finais e me emocionei novamente com o final desta série épica. O idioma espanhol me permitiu reler o livro como se o tivesse lendo pela primeira vez. Surpreendi-me várias vezes com as expressões e traduções diferentes do idioma espanhol. 

Como Esquecer - Myriam Campello



Este livro é uma poesia narrada em primeira pessoa. Um romance sobre a dor e um diálogo interior destinado a ninguém. A protagonista, Júlia, é tão dramática e trágica como qualquer personagem Shakesperiano; só não chega ao dito fato do "suicídio" por ser covarde e ainda ter um pequeno apego à vida. Também gostei do filme nacional, protagonizado por Ana Paula Arósio. De foma brilhante ele consegue passar a ideia de apego, desapego, dor, amor, desamores e, assim como o livro, deixa uma sensação de melancolia, uma herança da protagonista. 
Uma leitura nacional que me surpreendeu. Rápida, mas eficaz. Aliás, as leituras nacionais ganharam espaço em 2014. Além deste, li outros 8 livros brasileiros, todos me agradaram à sua forma.


A Sociedade do Anel - J.R.R.Tolkien



O ano de 2014 também foi o ano em que minha "biblioteca" particular mais aumentou. Ganhei muitos livros; comprei mais ainda. Talvez deva-se ao fato de trabalhar em uma livraria, mas acho que o "fato" de trabalhar em uma livraria é porque amo livros. Entre as tanta edições que comprei, pude permitir-me comprar a trilogia do Senhor dos Anéis, edição de colecionador. Tive que fazer a releitura deste clássico nessa nova edição e no ano passado pude ler o primeiro volume: A Sociedade do Anel. Apesar de conhecer bem a história, ler Tolkien sempre reserva boas surpresas e tive uma semana de leitura bem prazerosa. A trilogia é simplesmente uma das minhas favoritas. Tenho certeza que posso relê-la dezenas de vezes e sempre descobrirei coisas novas.

1Q84 - Haruki Murakami




Nunca tinha lido um livro japonês. Sou fã do cinema de terror asiático e vejo animes desde que me entendo por gente, mas livros, nunca havia lido nada. Me interessei por 1Q84 pelo título, que remete ao clássico de Orwell, 1984. Alguns amigos já o haviam lido e me indicaram muito ler a trilogia do escritor japonês mais lido no momento. Resolvi dar uma chance quando o box da trilogia chegou à livraria. Que surpresa boa! Acompanhei cada capítulo ansioso pelo próximo; é incrível como Murakami consegue ir do comum à ficção sem parecer apelativo. Detalhista e cheio de referências orientais e ocidentais; ler Murakami é adentrar em um mundo paralelo onde os personagens são tão ou mais humanos quanto o leitor. Foi, com certeza, uma das grandes surpresas de 2014.

As veias abertas da América Latina - Eduardo Galeano



Este livro é um verdadeiro clássico e é leitura obrigatória para quem deseja entender, compreender e emitir opinião sobre a história e a política da América Latina. É claro que o uruguaio Galeano é um esquerdista nato, mas em "As veias abertas da América Latina" ele destrincha a história latina desde seu descobrimentos aos seus ferrenhos anos de ditadura. Por meio de fatos (todos bem explicados e referenciados), Galeano nos ajuda a entender o porquê do nosso subcontinente continuar sendo subdesenvolvido, subjugado e com problemas seculares que teimam em se repetir . Li também um livro de direita que fala sobre a história da América. A série, "Guia politicamente Incorreto" é feita, normalmente, por jornalistas da Revista Veja e apesar de ser bem escrita e apresentar alguns fatos interessantes, peca quando diferente de Galeano, apresenta boatos como fatos, sem referências, apenas com hipóteses. 
Para entrar em uma discussão é necessário no mínimo um pouco de discernimento e compreensão do tema. Emitir opinião, apenas por emitir não é válido. Acho que o livro de Galeano é um clássico, pois nos ajuda a sair deste senso comum e desta síndrome de vira-lata, característica do sofrido povo latino.

1984 - George Orwell


Sempre fui fã de distopias e sou um leitor ávido de séries juvenis como Jogos Vorazes e Maze Runner, sendo a última lida no ano de 2014, uma boa surpresa. As séries juvenis, geralmente, têm um quê de 1984, sempre com referências, mas com um tom mais de aventura, até porque são livros cujo foco principal é o simples divertimento. 1984 é um livro muito simples e de fácil leitura. Você vai se envolvendo naquele mundo controlado por todos os lados, percebendo referências a regimes totalitários; buscando acontecimentos parecidos com os relatos de Winston na nossa sociedade atual. Existem várias referências que podemos perceber na nossa sociedade, isso porque o livro de Orwell foi escrito na década de 1940. Li o livro de uma vez, em uma edição antiga da biblioteca da minha universidade. Em poucos dias já o havia terminado, mas quedou a sensação de que a história ainda tinha muito a nos dizer. A obra-prima do autor inglês é com certeza uma das mais geniais do século XX, e merece uma prioridade para quem ainda não a leu.

O amor nos tempos do Cólera - Gabriel Gárcia Márquez



Sabe quando um livro te conquista logo nas primeiras páginas? Assim foi com o "O amos no tempos do cólera". Era uma noite comum e estava entediado, em uma ressaca literária depois de ler O Senhor dos Anéis. Não tinha planos  de ler o livro naquele momento, mas o abri, apenas por abrir, e resolvi começar a ler algumas páginas por curiosidade. Quando dei por mim estava chegando à página 50, e parecia que o tempo havia voado. Apaixonei-me pela história de amor perfeitamente realista de Florentino e Firmina; um típico romance latino. A história é de uma leveza... Você se envolve com as tramas e com os caminhos dos personagens de tal forma, que mal nota quando o assunto já mudou e os nomes já não são os mesmos.
Gabo é mestre em relatar os mitos que assombram uma cidade ou uma família, como bem fez em seu clássico livro Cem anos de Solidão. Em O amor nos tempos do Cólera, o colombiano, ganhador do Nobel, não relata apenas um amor: ele relata amores, paixões, sensações e atrações típicas do universo humano e da sua fragilidade perante os sentimentos. O livro me apaixonou e poderia muito bem ser o topo desta lista, mas por uma questão de motivos fica com um 4º lugar digno de 1º. 

Eclipse Total - Stephen King



Não poderia faltar um Stephen King na minha lista. Em 2014 eu li três livros do meste: Eclipse Total, Ao Cair da Noite e Joyland. O conto N, presente em Ao Cair da Noite, e a forma como Joyland relata sutilmente acontecimentos de uma vida  foram surpresas ótimas no ano e também entram na lista de favoritos. Mas, apesar de todos eles me surpreenderam de forma boa, Eclipse me marcou de  forma diferente. 
A cena principal tão bem relatada no livro (e que ficou em segundo plano no filme) me aterrorizou muito, demonstrando mais uma vez o imenso talento que tem o mestre do terror em contar histórias. Ele é especializado em cidades pequenas onde, aparentemente, nada acontece. Porém, segredos sempre fazem parte destes lugares que teimam em existir no mapa.
 Dolores Claiborne, a personagem principal do livro, se tornou uma das minhas favoritas do universo Kinguiano. Uma mulher que sempre se anulou pelos outros, muito parecida com milhões de mulheres que, pelo bem da família, esquecem-se de que têm uma vida.
Um dos mérito do livro é a narração em primeira pessoa e a forma detalhada e extremamente sincera em que ela é dada. Uma outra característica do King que sempre surpreende é o fato de ele antecipar o principal acontecimento, aquele que dá sentido ao livro. Para quem leu ou pretende ler, a cena do poço é simplesmente uma das mas aterrorizantes e uma das minhas favoritas.


Rosemary's baby (O bebê de Rosemary) - Ira Levin



Dizem que ler uma tradução te faz perder pelo menos 40% da história original. Não acredito que seja tanto, se você realmente tiver com uma boa tradução em mãos, mas o fato é: ler no original é bem melhor. Minha história com O bebê de Rosemary é antiga. Tenho uma lembrança do filme ter me aterrorizado na infância, mas é uma lembrança turva, talvez até uma criação da minha mente. Já mais adulto tive a oportunidade de ver o filme e ele se tornou um dos meus favoritos logo de cara. A cena final me aterrorizou como nenhuma outra cena até então. Lembro-me que fiquei de olhos arregalados,  todo o suspense e a atmosfera que o filme cria durante o enredo entram em ebulição com o final. 
Quando descobri que existia o livro, o busquei como louco, mas estava esgotado no Brasil e achei que demoraria muito para ter a possibilidade de lê-lo. Após comentar com um amigo sobre o filme, soube que ele tinha o livro em inglês, e apesar de ter me aventurado em línguas estrangeiras por poucas vezes (li Harry Potter, Cujo e alguns livros da série Goosebumps em inglês) aceitei o desafio e resolvi ler Rosemary's baby. Que leitura incrível. Tão eficaz quanto o filme, mas de uma forma mais pretensiosa. O  livro nos apresenta uma Rosemary mais forte, talvez um pouco mais certa do que vai descobrindo, isso sem perder o tom frágil. A história se desenvolve com bons diálogos e descrições, e a leitura em inglês me permitiu absorver melhor cada detalhe do livro. O vocabulário é simples, não é complicado. A cena final reproduziu a mesma sensação do filme; pude me arrepiar mais uma vez, e tive certeza, ao fechar o livro, que acabara de ler um clássico. 
Depois resolvi ler a continuação, O filho de Rosemary, escrito pelo autor décadas depois. Me arrependi. A história não é envolvente e os personagens perdem a "graça". Leia apenas Rosemary's Baby e aproveite, pois o livro foi recentemente relançado no Brasil.

Cem Anos de Solidão - Gabriel Gárcia Márquez



É até difícil falar da importância deste livro para mim em 2014, e por que não dizer na minha vida. Cem anos de Solidão é mais do que um clássico mundial; é a bíblia da América Latina. É o livro mais latino que já li e talvez vá ler. Foi meu primeiro do Gabo e o que me apresentou ao seu realismo mágico, à sua prosa detalhista e aos seus personagens humanos cheios de superstições e até preconceitos. Não posso deixar de dizer que no principio achei tudo muito estranho: Quantos nomes parecidos; Qual é mesmo a ordem dos fatos?; De quem estamos falando agora? Mas essa estranheza faz parte da leitura do livro. Chega a ser comum. Logo já estava me aventurando na Aldeia de Macondo, ultrapassando suas gerações, conhecendo suas paixões e desonras, seus grandes feitos de guerra. Por várias vezes pensava estar lendo um livro brasileiro. Uma história no sertão nordestino. Os personagens, tão latinos e tão acostumados aos seus infortúnios, lembravam-me das histórias da minha avó, nascida no Rio Grande do Norte, no tempo em que as mulheres ainda casavam antes mesmo de se esquecerem das poucas bonecas de pano que haviam ganhado de algum estranho na rua. As cenas, tão bem descritas, se projetavam na minha imaginação e do riso eu ia às lágrimas.
Cem Anos de Solidão não é um livro para qualquer leitor; é necessário ter essa noção regional, talvez uma paixão pela terra, um nacionalismo nato. A família Buendía e suas extensas gerações não deixavam Macondo quase nunca; apenas quando a guerra teimava em interromper-lhes a vida ou a morte se aproximava do povoado, que depois virou cidade. 
2014 me apresentou a um personagem que em 2014 nos deixou: Gabriel García Márquez, o mais latino dos escritores. Os três livros dele que li já o fazem um dos meus favoritos, e tenho plena certeza de que Gabo ainda me reservará bons anos de solidão.

"O segredo de uma velhice agradável consiste apenas na assinatura de um honroso pacto com a solidão." - Cem anos de Solidão

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Retrospectiva Blogal - Filmes de 2014

O ano que terminou foi, sem sombra de dúvidas, o que melhor aproveitei meu tempo, entre livros, filmes, viagens, trabalho e estudo. Pude organizar melhor os filmes que queria ver, e à partir das várias indicações que recebi e críticas que li, escolhi assistir bons filmes. Alguns,acima da média, me surpreenderam e entrara para o hall dos favoritos; outros me decepcionaram ou foram medíocres. Não sou nenhum especialista em cinema, muito menos um crítico; sou apenas um apreciador da sétima arte, e talvez caminhe para ser um cinéfilo, talvez. 

A lista que se segue, portanto, é apenas uma lista pessoal (como toda e qualquer lista de 'melhores') sem nada técnico que a faça perfeita. Não vi todos os filmes que estrearam nos cinemas, vi apenas os que faziam parte do meu gosto. Posso ter perdido alguns bons, mas também me surpreendi bastante. 

São duas listas: a primeira com filmes antigos que tive a oportunidade de conhecê-los só em 2014; e a segunda com lançamentos do ano passado. Os comentários e a minha reação são baseados no que postei na rede social filmow, um site destinado a cinéfilos. 

Antigos

De Repente California - Jonah Markowitz



Apesar de ser um filme extremamente simples, sem grandes diálogos ou grandes atuações, "De Repente Califórnia" se tornou um clássico por ser cativante e pela forma, aparentemente normal, que lida com temas como a homossexualidade e o preconceito. É um filme sobre o amor com cara de vida real.

Abraços Partidos - Pedro Almodóvar



Um filme digno de folhetim. A magia das cores e das atuações se misturam e criam uma trama impossível de tirar os olhos. Só Almodóvar pra criar uma atmosfera que envolve tão bem a morte, a traição e o cinema. Penelope Cruz, como sempre à vontade nas obras desse espanhol, demonstra um total reconhecimento de si e uma segurança magnifica como Lena. O título é dos mais belos também: "Abrazos Rotos". Não havia título melhor para retratar  os contatos interrompidos pela trama da vida; a maior novela já escrita.

O beijo da mulher aranha - Hector Bábenco



Gostei muito. Boas atuações, um enredo com excelentes diálogos em um contexto triste, mas real. São Paulo na década de 80 tem um quê todo especial. O filme tem cenas muito bem sobrepostas, e é triste pensar que é quase desconhecido do público brasileiro. Quase que o nosso "Sonho de Liberdade" subdesenvolvido.  

Machuca - Andrés Wood



Encontrando as palavras certas para este filme. Diria que, através dos olhos de Gonzalo, você descobre o que a polarização extrema pode acarretar. Você percebe nos detalhes as diferenças sociais, que não existem perante uns, e que se evidenciam perante outros. 1973 é um ano emblemático para o Chile. 11 de setembro é a data mais temida pelos chilenos, que ainda hoje, sofrem com as consequências de 17 anos de uma ditadura ferrenha, assassina e brutal. "Machuca" demonstra com poesia e maestria aquele momento histórico e triste. Se você duvida da crueldade de um regime militar, é porque está fechando seus olhos para fatos. Machuca e Gonzalo; pobre e o rico; Esquerda e direita. Tá tudo ali tão evidente, e no silencioso olhar de Gonzalo você vê as injustiças sociais, o preconceito e as tão temidas diferenças. Uma aula de história com poesia.

Clube da Luta - David Fincher



Que filme louco, mas uma loucura boa daquelas que nos orgulhamos. O enredo é tão frenético e se transforma conforme o protagonista vai se desenvolvendo. Uma ótima atuação do Pitt e da sempre excêntrica e deslumbrante Helena Bonham Carter.

Abril Despedaçado - Walter Salles


Uma poesia no sertão brasileiro. Um filme cheio de tradições e simplicidades. Ressalta a brasilidade, e costumes sertanejos dos séculos anteriores.Uma fotografia linda e atuações ( Santoro me surpreendeu ) ótimas, Um dos melhores nacionais que já vi.

As Horas - Stephen Daldry



Que obra-prima. Não esperava menos de um filme com três atrizes deslumbrantes como Nicole Kidman, Meryl Streep e Julianne Moore. Você se envolve na poesia das personagens e no clima melancólico que assombra cada cena que, quando percebe, já está emocionado. Que emblemática foi a vida de Virginia Woolf, uma gigante da literatura mundial, que escolheu o seu próprio destino na luta contra a depressão. Um dos filmes que mais me emocionou e não consigo ainda definir meu último sentimento quando o terminei. Também não posso dizer quem atuou melhor, mas Julianne Moore se superou. Trilha sonora e fotografia também fizeram bonito e merecem destaque. Um dos melhores que vi esse ano!
"A vida é como um sonho; é o acordar que nos mata."

Sociedade dos Poetas Mortos - Peter Weir



Que filme mágico. Ainda tenho lágrimas nos olhos que descrevem melhor a sensação de ver este clássico. Um filme, que entre tantas morais, nos faz refletir sobre a educação e seus métodos. É uma poesia cinematográfica; Robin Williams me surpreendeu. Nunca espero muito dele, e poxa, ele foi incrível. O poder da arte ( seja na poesia, no teatro ou na música ) é incitado em cada um dos jovens retratados. E, quem nunca sonhou em ser "artista"? Carpe Diem.
"A maioria dos homens vive uma existência de tranquilo desespero." Henry Thoreau



LANÇAMENTOS


Hoje eu quero voltar sozinho - Daniel Ribeiro



"Hoje eu quero voltar sozinho" é um filme com uma beleza tão singela e terna, que é difícil não sair do cinema meio que apaixonado pelo longa. Se o curta já foi capaz de seduzir milhares de pessoas (diga-se de passagem que conheço vário estrangeiros que o conhece ), o longa vai apaixonar. A relação do primeiro amor, vista sem malícia. Como é se apaixonar sem a troca de olhares? A inocência e a independência. O filme só peca com alguns espaços vazios e diálogos desnecessários, mas complementa esses erros com uma trilha sonora incrível e atuações ótimas. Pra um filme alternativo e de pouca "grana", é um sucesso o que esse filme pode fazer. Sem preconceitos e com amor, isso eu diria pra quem vá assisti-lo.

Garota Exemplar - David Fincher



Um dos grandes filmes do ano, triste por não tê-lo visto nos cinemas, mas me reservou uma dose de apreensão e de suspense que fazia tempo não sentia. O grande mérito é do livro, porém o roteiro está incrível.
Ótimas atuações e uma boa atmosfera de suspense. Favoritado.

O lobo atrás da Porta - Fernando Coimbra



Filmaço, com uma atuação de Leandra Leal incrível. O filme vai do comum ( conjugal ) ao incomum (psicológico). Você não sabe bem quem é vítima e quem é o culpado. Provando mais uma vez que o cinema nacional é ótimo!

O Grande Hotel Budapeste - Wes Anderson



É um filme totalmente artístico com uma fotografia e poesia incrível. É tudo muito visual e até o roteiro se torna assim. As atitudes, que parecem muitas vezes infantis, das personagens são irônicas e criticam um sistema de governo que viria a se instalar naquela Europa oriental nos fatídicos anos de 1939-1945. A relação que o autor, Stefan Zweig, teve com o Brasil também é de se destacar. Ele foi o criador do ensaio Brasil: País do futuro e via na nossa nação um contraste com o que propunha Hitler: a purificação das raças. Brasil: um país onde as raças se misturam e, ao menos sob a visão de Zweig, vivem harmoniosamente. Um filme ao estilo do seu diretor. Muito Bom.

Boyhood - Richard Linklater



Boyhood é uma obra-prima contemporânea da vida cotidiana. É como muito bem define a mãe de Mason: "A vida é uma série de momentos", e realmente é. O que nos difere é como vamos passar por essas tapas; quase impossíveis de pular. Como também é definido no final: "o momento que nos curte". Acredito que Boyhood retrata muito bem o que é a rotina e a vida de milhões de pessoas por aí. É a arte no comum. Trilha sonora incrível; também é muito bom perceber traços do nosso próprio amadurecimento nas personagens. Um dos grandes filmes de 2014.

Interestelar - Christopher Nolan



Um longa é surpreendente. Eu não o esperava, não estava ansioso por ele e o assisti como um simples admirador de Christopher Nolan, o diretor. Eu também sou apaixonado pelo universo e seus temas, então, de certa forma "Interestelar" me evocava, assim como um buraco negro faz no cosmos. As quase três horas que passei no cinema foram intensas e uma experiência única. Experienciar o filme e as suas "teorias" é além do que o cinema comum produz. Poucos filmes penetram desta forma na nossa mente, transcendendo o "assistir", passando a uma verdadeira experiência da arte. As imagens, a trilha sonora e o tom Kubrickiano de Interestelar é o seu grande mérito, e em um ano em que poucos filmes brilharam, longe das estrelas, Nolan e seu elenco criou um clássico, que como 2001, vai ultrapassar gerações. Mera opinião de um fã.

Her (Ela) - Spike Jonze



Muito bom. Terno, fofo e com uma poesia brilhante no decorrer das cenas. Quando me contaram sobre o filme cheguei até a rir. Achei ridícula a ideia de amor entre uma pessoa e um sistema operacional, mas foi uma surpresa ver como tudo se desenrolou bem e que o sentimento realmente existiu. É pra deixar de duvidar de que, no amor, tudo é possível. Uma necessidade de um solitário que se transforma em um amor puro. Linda trilha sonora e fotografia. Crítico e inteligente, um bom filme pra te fazer chorar (se você é sensível assim como eu ). Assistir "Her" foi, com certeza, a melhor experiência cinematográfica de 2014. Para mim, é claro.



quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Retrospectiva Blogal - Trilha Sonora de 2014

Os vários momentos da vida merecem uma bela trilha sonora. Aquele momento em que tudo pára e apenas a melodia de uma canção ressoa na nossa mente; abraços de partida; vivências únicas; experiências inesquecíveis. 2014 foi um ano com bons momentos e, quase sempre, uma música ressoava como um eco retumbante na minha cabeça, registrando cada espaço do tempo e marcando uma trilha sonora eterna na minha vida. 

Canções me lembram momentos, saudades trilhadas por canções. Este ano eu me maravilhei com a Bossa Nova, sua beleza singela e seu batuque único. Nunca fui de dar muita atenção para a MPB e para os, considerados, clássicos nacionais. O primeiro a "me conquistar" foi Tom Jobim e seu piano certeiro, que toca os corações. "Porque desafinados também têm coração". Eu, como um desafinado, vi nas interpretações de Jobim uma brasilidade patriótica recentemente aflorada em mim. Através de Jobim, descobri Elis Regina, João Gilberto, Chico Buarque e Caetano Veloso. Vozes únicas que cantavam as nossas lamúrias. "País tropical sofrendo a doença crônica da má política". A Bossa Nova trilhou a morte dos nossos heróis e o renascimento da liberdade.

Também descobri na música o meu lado etéreo; encontrei nos leves sons do piano, violino, violoncelo e harpas, um sentimento de plenitude sem igual. Descobri a trilha das estrelas e dos afogados.

Ah, e também redescobri as trilhas de viagens, as que marcaram os momentos pela estrada, na busca por um destino sem endereço.

Nas vozes trajantes, nos toques sensíveis e nas letras utópicas, o meu caminho trilhou as linhas de letras universais, que além do mar, do deserto e das solitárias estradas escreveram mais um capítulo no livro da minha vida. Eis à seguir algumas dessas canções que foram minha trilha sonora em 2014:

Pra dizer que não falei das Flores - Geraldo Vandré
Mercury - Sleeping at Last
All of the Stars - Ed Sheeran
Sete Vidas - Pitty
Broken - Jake Bugg
Vaga-lumes Cegos - Cícero
Push the Button - Amy Lee
Chão de Giz - Zé Ramalho
Doy un paso atrás - Samo
Chega de Saudade - João Gilberto
Vento no Litoral - Legião Urbana

Dare - Shakira



Violin - Amos Lee


Heroes - David Bowie


Varüd - Sigúr Rós



Wait - M83


Society - Eddie Vedder


Quero ser Feliz Também - Natiruts




Construção - Chico Buarque

Demorei muito para descobrir a existência da música de Chico Buarque. Já disse no texto do início da postagem que este ano eu descobri a bossa nova e sua intensidade. Chico foi uma grande descoberta que chegou para ilustrar um momento histórico do Brasil: as eleições de 2014. Não foi fácil viver neste ano em que o país se polarizou e os nervos ficaram à flor da pele. Muita ignorância foi compartilhada e muita mentira contada de ambos os lados. Nunca devemos ignorar a história, e Chico tão bem fez a trilha sonora de anos de amargura que o Brasil e a América Latina viveram, que sua obra até hoje é muito atual. "Construção" é só mais uma obra-prima deste poeta brasileiro que tanto disse e tanto vai dizer.

"Por esse pão pra comer, por esse chão prá dormir 
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir 

Por me deixar respirar, por me deixar existir, 

Deus lhe pague"




Lockdown - Amy Lee ft Dave Eggar

Não é segredo pra ninguém que eu sou fã de carteirinha da Amy Lee e do Evanescence. Este 2014 foi um ano iluminado para ela, já que a cantora teve a graça de ter o seu primeiro filho, Jack Lion. Além de ser mãe, Amy ajudou na trilha sonora do filme "War Story", que narra a história de uma fotógrafa assombrada pela guerra. Amy, em parceria com o violoncelista  Dave Eggar, produziu então "Aftermath": o primeiro trabalho solo de Amy Lee. "Lockdown" é a música que representa o CD, e apesar de não ser a melhor música do álbum, que teve uma boa receptividade pela crítica, é a que me lembra mais o Evanescence, portanto, se tornou minha favorita. Lockdown é uma das músicas do ano, o ano da Amy.

'Posso sentir você me chamando
Eu consigo saborear o veneno em seu coração
Mas estes sonhos
Mancham a linha entre a guerra e a paz
Para sobreviver, eu me bloqueio"


Saturn - Sleeping at Last

A música de 2014 quase não tem letra, mas diz muito nos seus silêncios. É etérea, envolvente, triste, melancólica, esperançosa e romântica. É tudo que eu espero em uma canção. Ela foi trilha em vários momentos deste ano, em um especial, marcante na minha vida: quando no Atacama, fiz um tour astronômico e vi Saturno "mais de perto". Toda a discografia (me apresentada e presenteada por um grande amigo) do Sleeping at Last é única e marcou minha trilha sonora de 2014; essa canção  da banda representa todas as outras, que falam do universo e da plenitude como poucas. Ela me lembra pessoas, momentos e lugares. Tenho toda a certeza do mundo e do universo que é uma das minhas trilhas até o fim da vida. Saturn é incrível.

"Com falta de ar eu explicarei o infinito
Quão raro e belo é realmente existirmos"